Maio 16, 2008

O dia em que não houve notícias

Algum humorista (não me lembro quem) tão escrotinho quanto sincero afirmou que acontecem diariamente no mundo o número exato de notícias para fechar um jornal. Pois um dia, não houve notícias:

VideoFlickr do Pixelsurgeon

Maio 13, 2008

A voz da ignorância

Ouvi o animador de auditório policialesco José Luiz Datena escrachar a internet, e mais especificamente o Google, por conta de abusos criminosos presentes na rede como a pedofilia. Ora! Os males da internet devem ser combatidos, mas não com bravatas irresponsáveis que, em vez de esclarecer, acabam por desinformar o público que ainda não acessa e nem sequer sabe o que é a internet.

Tal desconhecimento não se restringe ao povo de forma geral. A Justiça brasileira já deu mostras de olímpico desconhecimento do que é a internet, e de como ela funciona, sentenciando o bloqueio judicial do Youtube no episódio Cicarelli e impondo uma indenização no valor de 10 mil reais, por parte da Google, a um usuário que se sentiu lesado por causa de perfis falsos no orkut. O primeiro caso serviu para ensinar aos magistrados o que todos nós sabemos: que hoje, na internet, impedir a difusão da informação não é só indesejável, é impossível! O segundo ensejou um recurso da Google lembrando que, em tempos de web colaborativa – cujo conteúdo é resultado da participação e intervenção direta dos internautas – a empresa não pode se responsabilizar por tudo o que é publicado pelos usuários.

Comportamentos como o de Datena e de alguns magistrados acabam provocando naqueles que ainda estão excluídos da cultura digital uma atitude de desinteresse ou mesmo de rechaço a internet. Comunicadores de grande público e representantes do estado e da lei e da sociedade que não se interessam pela rede dão mostras que se desinteressam do futuro – que já está a porta…

Maio 11, 2008

Dica de filme - ‘Once’

Once, de John Carney (Irlanda, 2008.) é um filme que deixa escorrer musicalmente a intensidade que sempre guardamos secretamente em nós… que as vezes nunca vem à tona. Uma semana na história de duas pessoas, personagens marginais que se encontram nas ruas de Dublin – um músico que canta ali mesmo nas ruas depois de passar o dia trabalhando na oficina do pai; e uma vendedora de flores. O encontro, a aproximação e em comum entre ambos a paixão pela música. ‘Eu não a conheço e a quero ainda mais por isso!’, cantam juntos, ao piano, os personagens sem nome interpretados por Glen Hansard e Markéta Irglová. Ele a faz lembrar da importância da música em sua vida; ela o estimula a gravar um cd demo e a sair em busca de um destino musical. Ambos entreolhando-se carregados cada qual de suas histórias de antes, de suas lembranças, de suas frustrações – enxergando um no outro algo que só a música poderia nos fazer perceber…

Trailer do filme:

Maio 11, 2008

Nós somos alvos

Noam Chomsky, em artigo¹ sobre armas nucleares e crise ambiental, cita o general Lee Butler, ex-chefe do comando estratégico dos EUA, que antes foi um dos mais ávidos defensores da fé nas armas nucleares, e hoje declara que tais armas nos fizeram um mal imenso: ‘Com que autoridade sucessivas gerações de líderes nas potências nucleares usurparam o poder de ditar o destino da continuidade da vida no nosso planeta? E, mais recentemente, por que esta audácia de tirar o fôlego persiste, em um momento em que nós deveríamos estar tremendo em face de nossa loucura e unidos no compromisso de abolir suas manifestações mais mortíferas?’

É de conhecimento de todos a existência de armas capazes de deixar uma esteira de devastação sem precedentes e as iminentes crises ambientais que assolarão o planeta, muito embora sejam preocupações maiores para a maioria das pessoas as novelas produzidas pelos telejornais e juntar grana para pagar a prestação do carro. A insanidade, portanto, não é só daqueles que fazem as bombas nem dos caras que, talvez um dia, as lançarão sobre nós. No artigo, lê-se que, após o fim da União Soviética, o Pentágono avalia que o ambiente internacional evoluiu de um ‘ambiente rico em armamentos’ para um ‘ambiente rico em alvos’ e comenta documentos produzidos por especialistas dos EUA que consideram como armas de guerra o abuso do poder de controle das finanças internacionais.

Portanto, não obstante as transformações que sofrem as formas de fazer as guerras e os motivos das matanças e conflitos, sempre haverá alvos, e hoje os alvos somos nós. - Se pensarmos o mundo com seus idiotas no poder, suas tensões de todas as ordens, seu esgotamento ambiental progressivo e suas armas com poder de destruição global, não somos mais do que alvos que sonham.

1. Artigo transcrito no jornal A Tarde neste domingo dia 5.

Maio 10, 2008

Patriotismo tupiniquim

Chico Alencar se manifestou, na Caros Amigos, contra a presença do USS George Washington, nave bélica dos Estados Unidos da América, em águas territoriais brasileiras. O navio coordenará um série de exercícios navais com participação conjunta das forças brasileiras e argentinas.

Admira-se Alencar de que a presença de um arsenal radioativo flutuante ancorado no Rio de Janeiro não tenha provocado nenhuma reação de protesto ao império que se autoproclama ‘xerife do mundo’. As Forças Armadas Brasileiras, defensoras dos interesses nacionais, ’são valentes contra índios e paraguaios, e covardes diante do poderio da águia americana?’ pergunta-se, e conclui solicitando:

‘aos Ministros de Estado do Ministério da Justiça, do Ministério da Defesa e do Ministério das Relações Exteriores, informações relativas à presença do porta-aviões USS George Washington - CVN 73 em águas territoriais brasileiras, no que tange:

a) à autoridade que liberou a presença do referido porta-aviões em águas brasileiras e a base legal da referida autorização;

b) ao tempo em que o porta-aviões permanecerá e território brasileiro;

c) às informações de quantitativos de armas existentes no porta-aviões, inclusive de armas atômicas e da realização de aferição, pela autoridade brasileira, das informações prestadas pelo comandante do referido porta-aviões;

d) à constitucionalidade das atividades que serão desenvolvidas em território brasileiro pelo referido porta-aviões;

e) às medidas de segurança nacional adotadas, inclusive as relativas à preservação do meio-ambiente em razão de eventual vazamento de carga radioativa.

Eu também queria saber… leia mais no Viomundo.

Maio 7, 2008

Dica de filme - ‘Irina Palm’

Há poucos dias assisti, na companhia de Marcela Isis, o filme ‘Irina Palm, de Sam Garbarski (2006, Bélgica / Luxemburgo / Inglaterra / Alemanha / França).

Trata-se de um drama, embora com momentos divertidos, sobre o sacrifício de uma senhora cinquentona, a Maggie (Marianne Faithfull), que, para ajudar o neto que necessita de tratamento médico especial, acaba aceitando o trabalho numa casa de prazeres onde suas mãos macias fizeram fama. Ela não se expunha – atuava numa cabine que fora por ela decorada, para susto do dono da casa, como a saleta de estar de um lar tipicamente britânico. Entrava, preparava as mãos, e olhava o ameaçador buraquinho onde apareciam os ávidos objetos de seus toques e movimentos continuados esplendidamente aplicados, a julgar pelo sucesso de Irina Palm na boca pequena dos desocupados da noite londrina.

É óbvio que era um trabalho secreto - ela o fazia por baixo do pano. Seu filho jamais aceitaria tal coisa. E como se fazia necessária uma grana boa e urgente - e a família já havia esgotado todas as possibilidades de levantar fundos – Maggie encarnava a Irina Palm com gana e afinco, a ponto de desenvolver uma lesão no cotovelo muito comum em tenistas, conhecida como ‘cotovelo de tenista’, prontamente adaptada por ela como ‘cotovelo de penista’ – e passou o serviço para o outro braço…

Maggie, cinquentona, tinha amigas também cinquentonas que se reuniam frequentemente para tomar o chá das cinco e conversar fiado apenas sobre o que se permitiam, e não era muito. Desconfiadas das diárias saídas noturnas de Maggie, passam a pressioná-la e olhá-la de lado, curiosas. E o filme segue, como uma boa música, que de repente chuta forte a bunda da hipocrisia cotidiana de muita gente que assiste a vida passar como idiotas babões que vivem trocando entre si os argueiros dos olhos e o medo das chibatas e dedos em riste dos padres, dos vizinhos, de Deus, de si mesmos e do diabo a quatro…

A grandiosa Maggie, se bem me lembro, termina o filme sorrindo…

Confira o trailer no youtube.

Abril 30, 2008

Professor Manta quer ganhar o Nobel*?

Trechos da matéria sobre as declarações do professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Antonio Natalino Manta Dantas, publicadas no portal Terra:

O professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Antonio Natalino Manta Dantas, atribui ao ‘baixo QI dos baianos’ a nota 2 obtida pelo curso no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade).

Pode estar havendo uma contaminação das cotas e influência da transformação curricular nesse resultado.

Ainda na entrevista, Dantas afirmou que a tradicional percussão do Olodum é um ‘barulho‘ e que um dos símbolos da Bahia, o berimbau, é um instrumento para pessoas pouco inteligentes. ‘O berimbau é o tipo de instrumento para o indivíduo que tem poucos neurônios. Ele tem uma corda só e não precisa de muitas combinações musicais‘, disse.

Vê-se que o professor Manta, baiano e formado na UFBA em 1960, é daqueles cuja vida prática não contradiz as opiniões. O professor recorre a simplificada idéia numérica de QI – Quociente de Inteligência – para acusar a suposta inferioridade dos baianos. Um erro científico básico: conceitos de raça e de inteligência não são claros na Biologia moderna e não há motivos científicos para pregar diferenças de nível de inteligência entre grupos distintos.

É comum que gente equivocada incorra em falácias – conscientes ou não – favorecendo certos grupos frente a outros segundo aspectos culturais e não relacionados a inteligência. Declarações como as do professor Manta não sinalizam apenas ignorância, são perniciosas, não obstante sejam também risíveis, e seu efeito deve ser a destruição de sua própria reputação, supondo que ele tenha alguma. O professor Manta incorre em velhos erros históricos, talvez, para ganhar o Prêmio Nobel*?

Sobre o berimbau, Tom Zé dá uma resposta esclarecedora, apesar de evidente para quem tem o mínimo de percepção de mundo…

* Referência as declarações do biólogo James Dewey Watson – ganhador do prêmio Nobel – que declarou estar “inerentemente pessimista quanto às perspectivas da África” porque “todas as nossas políticas sociais estão baseadas no facto de que a inteligência deles é a mesma que a nossa – enquanto que todos os testes dizem que não é assim”.

Abril 28, 2008

mínimas

Talento para banalizar o drama e dramatizar o banal é o que basta para ser jornalista?

Abril 18, 2008

O amor natural de Drummond

Eu já conhecia Drummond quando li pela primeira vez ‘O Amor Natural’ e fiquei gratamente surpreso de saber que, para o poeta, a ‘máquina do mundo’ era movida também a sacanagem… Escolhi três poemas que compõem a obra lançada em 1992, emblemas do despudor poético do cara:

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.

Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.

Adorando.

Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

A castidade com que abria as coxas

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

Mimosa boca errante

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

Abril 18, 2008

Um papo esquecido sobre religião

foto do Flickr de bachmont

Dia desses, numa discussão desinteressada, defendi que, não obstante a importância da Religião para o homem, o religioso em si é – considerando nossa cultura cristã ocidental – alguém de alma degradada e auto-mutilada. Argumentei que uma Religião autêntica teria que ser contracultural em essência – como o foi o cristianismo em suas origens –, pois nossa cultura cristã ocidental estabelecida já não respeita o sagrado, nem as tradições – tudo, agora, é muito fluido e mutável; o nosso ‘Deus’ é hoje um conceito vago pronto para se dissolver numa ‘força vital’ ou ‘consciência superior’; a Igreja Católica é uma instituição sem lugar, mais preocupada com seus efeitos terrenos do que com o outro mundo que prega, nos fazendo crer que Deus foi feito para a Igreja, e não o contrário; e as seitas pentecostais, como a Igreja Universal e afins, representam o que há de mais selvagem no quesito intolerância e manipulação e também ignorância, marcadas por uma tal sede de dominação do mundo e das pessoas que resultou numa das crenças mais ferozmente pretensiosas de nossos tempos.

Na mesma discussão, disse ainda, levianamente, que igrejas teriam sempre uma atmosfera mórbida e doentia – cada fiel levaria consigo ao lugar os seus demônios e tentaria sufocá-los a todo custo, mesmo que inadvertidamente – e por isso mesmo da forma mais perigosa.