Abril 17, 2008

Humanidade desistida

foto do Flickr de Mabar

A humanidade, apesar de grandiosa em alguma medida, sempre foi horrenda! As mais negativas características de nossa época – como o fascismo, o nacionalismo, a corrupção, a intolerância religiosa – são também de todas as épocas. Vê-se mais comumente hoje, entretanto, a ascensão dos idiotas, os estúpidos no poder. A juventude hoje é velha e conservadora – os jovens medem a vida a partir de coisas sem importância, dedicam a vida ao desejo utilitário e à busca insossa de comodidade financeira e de um artificial, frágil e mesquinho status social, em qualquer esfera ou classe social (exceto aqueles que encontram no crime e na violência a forma desesperada de existir). A vida dos jovens atuais os tornam tolos e desinteressantes, e a sua falta de curiosidade e de ousadia perante outros aspectos da vida menos superficiais e os preconceitos de todos os tipos escondem um rancor secreto contra o mundo.

Àqueles que agora sentem que pisam num chão que lhe desagrada, resta-lhes ser sua própria fonte de experiências e ver um mundo diferente, ainda que sozinhos – sob o brilho solar de uma vida que desponta a cada amanhecer, a cada movimento… a cada onda que irrompe do mar.

Abril 10, 2008

Arte e cultura livres

foto do Flickr de Bluelinestudio.it

A indústria [termo que vem se tornando cada vez mais antipático] viciou de tal forma algumas dinâmicas sociais que geram maus costumes até mesmo naqueles que deveriam dela estar livres – como é o caso de muitos artistas. Creio que o artista deve subverter todas as relações que não sejam favoráveis à arte, mas o que se vê, quase sempre, é o contrário: a indústria subverte os artistas, e estes atuam segundo interesses da indústria [interesses que passam a ser também os seus quando a sua motivação passa a ser mormente de natureza comercial].

Não é difícil imaginar, mesmo para os diletantes, o quanto são restringidas as possibilidades de desenvolvimento de diversos tipos de arte (especialmente do cinema) quando a motivação dos produtores é predominantemente comercial. Não é preciso ser escritor para perceber o quanto a literatura padece com a motivação comercial - ‘É difícil para os escritores não medir o próprio mérito pelos direitos autorais, e quando os livros de má qualidade podem trazer boas compensações pecuniárias é necessário muita firmeza de caráter para produzir bons livros e continuar pobre’, escreveu Bertrand Russel em 1935. É evidente que tal situação não se aplica somente aos escritores, e que direitos autorais, no caso, implicam não só em reconhecimento [que é necessário], mas em dividendos cujas proporções, normalmente, são estabelecidas pelas empresas intermediárias entre autor e público.

Embora a internet, ainda que de forma experimental e caótica, elimine a necessidade de tal intermediário [visto que qualquer um pode publicar sua obra diretamente], é claro que critérios devem ser considerados - afinal, artista não é quem apenas publica algo, mas quem produz arte e a publica [pessoalmente, penso que publicar um livro deve ser, sim, possível, mas também um tanto de dificuldade não faria mal – pois exigiria alguma determinação e vontade do autor para publicar a sua obra, demonstrando que acredita nela, confiando que tem algo de valor a expressar]. Contudo, sei o quanto a dinâmica anárquica da internet é fundamental para a difusão da cultura e do conhecimento, indo de encontro a ‘ditadura do intelectual’ e ao elitismo reivindicado, porém não praticado de alguns espíritos draconianos – e não é a toa que a rede [que cresce a cada dia em volume de conteúdo - qualquer conteúdo - e participação de pessoas] incomode tanto as indústrias que fizeram fortuna e poder com a arte e a cultura, especialmente as fonográfica e cinematográfica – os setores mais afetados pela pirataria. Aliás, com o surgimento de tecnologias como P2P, os prejuízos dessas indústrias foram tão gritantes e deseperadores que ensejaram um fenômeno interessante: as empresas agridem seus próprios clientes acusando-os de bandidos – e não é raro ver artistas agredindo seu próprio público a mando dos donos das empresas as quais se rendem, comparando o ato de baixar um vídeo ou uma música na internet a um roubo de carro ou coisa que o valha. A questão dos direitos autorais, claro, deve ser amplamente discutida – afinal o artista precisa sobreviver e ser reconhecido e até recompensado – mas não apenas sob a ótica da indústria, afinal, os tempos mudam….

Em suma, pelo menos para os artistas, é hora de resgatar a arte como arte, e esperar dela resultados como tal. É preciso ter claro que mesmo que toda a indústria em torno da cultura e da arte ruam e desabem, a arte permanece, desde que permaneçam as pessoas e, claro, os artistas. A arte não precisa da indústria, seja esta da esfera pública ou privada. Precisa, sim, de públicos – e começam a surgir outras formas de alcançá-los que prescindem da sujeição do artista aos donos da indústria. Novos modelos de negócios surgem e novas formas de propriedade intelectual mais flexíveis - como a licença Creative Commons - que estimulam a livre troca de idéias e a livre e dinâmica circulação de obras autorais. Já é um começo. Cabe aos artistas revisarem seus objetivos quando necessário, e ousarem descobrir e experimentar - e arriscar - novas possibilidades de difusão de seus trabalhos.

Por Fabricio Kc

P.S. A internet faz surgir novos modelos de negócios também no âmbito artístico-cultural como exemplificou a banda inglesa Radiohead, que disponibilizou em seu site o album Rainbow para download, deixando a critério dos fãs definir quanto pagaraiam por ele.

Abril 8, 2008

Poema achado

Cale-se.

é preciso que me ouças.

no dia em que me negaste,

expus minh’alma a todos os ventos, a todos os versos.

desde então não há nada que não me seja nocivo.

que não me enlouqueça.

Todos os infelizes e miseráveis, entre homens e deuses,

tiveram em mim a sua desforra.

No dia em que me negaste a sua cumplicidade,

a cada respirar senti náusea.

não suportei o silêncio,

nem o ruído descabido de meu coração a bater,

irritantemente.

Não suportei a razão.

não suportei sentir ou enxergar.

No dia em que, despretensiosamente, deixou que

minhas lágrimas despencassem no vazio,

eu me mantive submerso.

A cada amanhecer tive uma treva.

A cada chão que piso, um inferno.

Desde que me negaste a sua boca,

tenho, a cada movimento, uma chaga.

A cada pensamento… uma morte.

Fabricio kc, em 18/10/2001, Homenagem à Corja dos Poetas

Abril 7, 2008

citações

“Para se julgar um homem é preciso estar no segredo do seu pensamento, das suas desgraças, das suas emoções; só querer conhecer da sua vida os acontecimentos materiais é fazer cronologia, a história dos parvos.”

Honoré de Balzac

Abril 5, 2008

Um pouco de insanidade

O sexto número da revista de quadrinhos independente Quadrinhópole - lançado hoje em Curitiba - dedica suas páginas à loucura com a história ‘Insanidade’, que narra o drama do jovem Leonard Nicholson, internado pela família num hospital psiquiátrico sem ter idéia do motivo. Situação kafkiana, tão angustiante quanto o processo de Joseph K., porém, creio, mais brutal.

A loucura é um tema fascinante. Através das emoções mais intensas participamos das mais felizes idéias e inspirações - e, embora não nos seja dado discernir em que grau, todos experimentamos a loucura em algum rincão de nós, nem que seja uma esquizofrenia pequena, cinza e castrada. A vida em processo de desequilíbrio resultante de todo o fardo da cultura e da história, além do fluxo contínuo de informações e sensações que nos atinge hoje, põe o mundo num estado de superexcitação nervosa capaz de perturbar ousados alienistas.

Nietzsche, que sabiamente enlouqueceu, foi causa e sintoma de tudo o que é louco em nosso tempo e anunciou iluminadamente que ‘a loucura é algo raro em indivíduos - mas em grupos, partidos, povos e épocas é a norma‘. Nada mais alucinadamente lúcido…

Saiba mais sobre a edição 6 da Quadrinhópole no Blog dos quadrinhos.

Março 27, 2008

Momento xadrez

 Segue um link para um embate brutal entre Fischer e Tal, em 1961. O vídeo que segue mostra Petrosian, Keres, Smyslov, Tal e Fischer em Belgrado 1959. Pérola:

Março 25, 2008

TV on the Radio

TV on the Radio é uma banda novaiorquina formada em 2001. O som, que mistura free-jazz, rock e eletrônica, prova que - pelo menos no que se refere a Rock’n Roll - os States devem ser reverenciados. Segue a inquieta ‘Wolf Like Me’ saída dos confins do Brooklyn.

Março 24, 2008

Violência das elites e controle social no Brasil

control-police.jpg é o tema do livro The Unpast: Elite Violence and Social Control in Brazil, 1954-2000, do historiador da Universidade de Ohio R. S. Rose (professor-visitante da PUC-RS). Segundo o comentário introdutório, o livro analisa, sob uma ótica histórica, as novas práticas adotadas pelas elites para para matar, torturar e manter o seu domínio, considerando, inclusive, o fenômeno dos esquadrões da morte.

Deve ser uma boa pedida para quem gostou de ‘Tropa de Elite’… aliás, num país cínico como o nosso, onde as periferias só são alvo de atenção do estado policial, entender a complexidade das dinâmicas do subúrbio é tarefa pra inglês ver. Por aqui, mesmo em tempos de democracia, os jovens da periferia não podem se divertir como os universitários do Mackenzie e a cultura da periferia só é considerada (ainda que discriminada) quando vislumbra um nicho de mercado.

Enquanto isso, a violência, característica histórica do país, cresce a cada dia, mas só nos preocupa quando ela parte do pobre que desce dos morros com armas em punho. - Que os capitães Nascimento formem seus esquadrões da morte e que a guerra cotidiana nas favelas e subúrbios mantenham os pobres sob controle - mas que não nos incomode cá por baixo, ou cá por cima!

Contudo, não é surpresa que pessoas violentadas, ao longo de séculos, pela desigualdade social, pela discriminação e pelo esquecimento, pelo chicote e pelos carrascos policiais a serviço do bem, um dia se rebelem e digam: ’se ninguém me dá nada, eu vou tomar com minhas próprias mãos’… e cá estamos nós, no fogo cruzado, tomando um chopp no shopping e lendo os jornais sangrentos.

Março 24, 2008

Poema lembrado

Poucas e loucas gozam de novo
e é tão bom…
faz bem a pele, ao cabelo, a cuca
e ao coração
Amam de graça, seja ele pobre ou doidão,
Racham contas, nossa…
Ficam tontas de paixão!
Essa goza, a outra não
A outra quer mesa posta, mesada,
Pai, motorista e patrão
E um homem? não querem não?
Tem gente por aí
Que vai morrer de raiva e indignação,
Podem continuar ouvindo
Prometo não tocar em masturbação.

De Glória Horta 

Março 21, 2008

Quadros-negros são estáticos; estudantes são dinâmicos

Educação e cultura, num ambiente como a internet, equivale a aprender a pensar por si só, a criticar, a filtrar e qualificar as informações lá disponíveis. Velhos sistemas de educação baseados na autoridade e no prestígio já não servem. A educação deve ser baseada na livre troca de idéias e no intercâmbio contínuo de mentalidades, livre de amarras governamentais e mercadológicas.

O video que segue foi criado por estudantes da Universidade do Kansas, nos EUA, para questionar lacunas - ou mesmo abismos - do sistema educacional atual em relação a geração de jovens que cresceram conectados a internet.

« Previous PageNext Page »