desocupa: entre os sintomas e as causas

É fundamental lembrarmos que muitas das questões que nos preocupam são, antes de serem políticas e econômicas, humanas.

Hoje tive em mãos o jornal A Tarde desta terça, 17, e duas notícias me chamaram à leitura: um elogioso texto de um professor da UFBA sobre o “movimento Desocupa”; e uma matéria sobre a execução de um trabalhador em Pernambués, execução perpetrada, segundo parentes da vítima e moradores do bairro, por policiais. A nota diz que a Polícia ainda não abriu nenhum inquérito sobre o caso.

Convite a uma reflexão contextual

Participei da manifestação “Desocupa”, e a considerei legítima e necessária – espero mesmo que manifestações assim se desdobrem em ações continuadas e articuladas de protesto e mobilização popular efetiva. Entretanto, a vergonhosa privatização da praça é apenas um pálido reflexo – um sintoma – do problema mais profundo, a causa: o sequestro da Política por poderosos grupos de interesses privados. Na Bahia, este é um problema do município, acentuado pela total ausência de gestão na prefeitura, e também do Governo do Estado, afinal foi amplamente noticiado que houve uma transação envolvendo o governo Wagner, a prefeitura e as bancadas partidárias de vereadores para alterar a Lei de Ordenamento do Uso do Solo (LOUS) da capital baiana – exigência que atende aos interesses de grandes construtoras, empreiteiras e outras empresas que lucram com o mercado da especulação imobiliária.

Enquanto isso, as periferias se tornam cada vez mais violentas, e a cidade como um todo – mesmo em suas áreas nobres – cada vez mais perigosa. Creio que a maioria das pessoas que participaram do “Desocupa” não moram em periferias nem em comunidades, e vivencia a violência social através do medo e dos jornais, mas não no cotidiano nem do mesmo modo tal como a vivencia a maior parte da população de Salvador, que sofre inclusive as violências do aparato policial do Estado e do sistema de organização política e econômica que gera as graves desigualdades sociais (legalmente) e possibilita os escandalosos extravios políticos (ilegais, mas frequentes e impunes).

Repito que a questão da praça é importante e, logo, o protesto do “Desocupa” é legítimo, visto que o caso reflete graves extravios políticos e sociais. Também não acuso a nós – participantes do protesto – de não nos importarmos com outras causas sociais, políticas e culturais de grande relevância. Mas é fundamental lembrarmos que muitas das questões que nos preocupam são, antes de serem políticas e econômicas, humanas.

A matança cotidiana nas periferias é uma realidade inerente a muitas das cidades brasileiras. A naturalização da violência nas favelas e periferias, tão frequente nos jornais e nos programas televisivos policialescos, já não nos mobiliza tanto quanto exigiria uma Ética voltada para a valorização da vida e para o melhoramento estrutural de uma sociedade dita politicamente organizada sob a égide de ideais como democracia e cidadania.

Fica um convite à nossa reflexão: protestar contra os nítidos sintomas de doença de nossa problemática sociedade é necessário, mas não devemos excluir a nossa atenção às suas causas, sejam elas nítidas como a desigualdade social em si, ou não tão claras como as ideologias que condicionam e alimentam tal desigualdade, legitimando falsos discursos sobre as suas causas e consequências.

Que ideologias? Que discursos? Que problemas? – parto, portanto, de uma notícia pontual sobre o assassinato de um trabalhador num bairro de Salvador e da experiência de uma espontânea mobilização de protesto – o Desocupa (que traz slogans como “a cidade é de todos” e “a Bahia ainda está viva”) –, para sugerir uma reflexão sobre a nossa sociedade, as nossas responsabilidades, o valor da vida e sobre as nossas motivações políticas. Nenhuma resposta, apenas questões…

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