Assistir ‘O Leitor’ foi uma experiência interessante!
Claro que, depois de ler, em sites que freqüento, as opiniões de Marcelo Janot (aqui), Luiz Fernando Gallego (aqui) e Cléber Eduardo (no Cinética), é difícil não concordar com os defeitos apontados – batendo tudo no liquidificador: um filme com potencial, porém muito degradado por tentáculos hollywoodanos e adjacências. Eu, no entanto, filtrei alguns recortes que, parece, ninguém deu importância.
O que me chamou mais a atenção foi a dimensão demasiadamente comum da personagem Hanna – ignorante e rude, mas sensível; inocente, nazista, carrasca e amante – como a grande maioria das pessoas.
Daqui em diante, SPOILERS

cena de 'O Leitor'
Quando perguntada, durante o julgamento, acerca do que motivou o seu recrutamento na SS, Hanna respondeu que trabalhou na Siemens, mas perdeu o emprego e precisava de um novo trabalho – a Polícia Nazista estava, oportunamente, recrutando. Ela se tornou guarda e foi designada para trabalhar num campo de concentração – diga-se – montado pelo Estado Alemão. Lá, cumpria ordens de seus superiores: selecionava prisioneiros para morrerem. ‘O que o senhor faria em meu lugar?’, ela pergunta, perplexa, ao juiz.
Do ponto de vista ‘conceitual’, a inocência doentia (assim a percebi) de Hanna não difere muito da criminosa serenidade do nosso dia-a-dia. Se os nazistas matavam gente em série através de uma máquina burocrática estatal, as estruturas sociais capitalistas de hoje não melhoraram muita coisa. Centenas de milhares de pessoas vivem em situação de extrema miséria, e morrem todo dia matando-se umas as outras ou de fome e doenças de todo tipo – se eu me preocupo apenas com meu emprego, em certa medida, não sou igual a Hanna? Se para que eu ganhe, trinta pessoas têm que perder, e eu sei disso, e me vanglorio disso, não sou um ‘banalizador do mal’?
Um dos alunos do seminário, no filme, questiona o professor sobre os campos nazistas: ‘meus pais sabiam, seus pais sabiam, nossos professores sabiam, e não fizeram nada? E se não souberam antes, porque não se mataram quando descobriram?’ Quem não sabe da fome e da miséria no mundo – e deduz suas óbvias causas – que atire a primeira pedra. Porque todos vimos mais de 1 trilhão de dólares surgirem para acudir prontamente especuladores irresponsáveis e milionários do mercado financeiro, mas, mesmo com todas as campanhas de artistas, ONGs e tudo o mais, não se conseguiu um quinto disso em 30 anos para amenizar a fome e a miséria no planeta.
Mas, claro, precisamos de alguém ou algo para culpar enquanto nos preocupamos em nos tornar digníssimos e tributáveis gerentes do mercado. Condenaram Hanna a prisão perpétua sob a acusação de ser um monstro nazista. Nós condenamos o que? O capitalismo? Os poderosos? O Sistema? O que, disso tudo, não está em nós?
O filme termina com Berg contando sua história para a filha – final fraco, mas ainda assim extraio um recorte: ele começa: ‘uma mulher me ajudou…’. É a última frase do filme…
É que dentro das monstruosidades do mercado, a gente tem que tentar continuar sendo humanos, né? Bom texto. Beijoos