Diálogo comigo mesmo

Por uns tempos, mantive o ímpeto de escrever num caderno as minhas sensações emocionais, as minhas impressões íntimas do momento. Relendo-as, percebo o quanto são pontuais em relação a uma fase da vida, percebo o quanto mudei, o quanto aquele era outro que só agora é mais claro pra mim, a ponto de eu me permitir revelar tais escritos – não mais como registros íntimos, emocionais e dramáticos, mas até mesmo para mim, como caprichos estéticos de um contexto. Afinal, a necessidade trágica da arte não nos deixa dúvidas: a vida deve ser considerada segundo princípios estéticos. 2001 foi o ano mais intenso, parece…

Dia 26 de novembro de 2001, uma segunda-feira, feriado, às 19 horas:

“Ainda enxergo a vida com um olhar pueril. (…) tudo o que quero é achar um lugarzinho ao sol. (…) é como aquelas músicas que nos resgatam de uma realidade atormentada e monótona. (…) Tão logo a realidade nos rapina a beleza, passamos a enxergar tudo o que há de belo somente como algo onírico (…) e o colorido se esvai, a poesia se esvai escorrendo pelos ventos. (…) Afinal, viver é passar o tempo, cada qual a mercê dos seus deuses e demônios, e de si mesmos. (…) Inventamos o tempo para não enlouquecer. Inventamos o amor para experimentar esse caos sensitivo, quando assim o preferimos às monótonas calmarias do tempo.”

08 de outubro de 2001, as vésperas do meu aniversário de 23 anos:

“(…) Mas só para os que se sabem amantes; reconhecem a culpa por amar. Somente para aqueles que não temem a insensatez – só se percebe o sublime quando se é insensato. Esses, com resignação, refugiam-se em sua dor, alimentam-se da música; sem pudor, refugiam-se na poesia, comprazem-se em derramar lágrimas, ainda que doa, doa muito; ainda que seja o amor uma dor inexorável, eles amam… não dissociam a dor do amor ou o amor de delírio, mas vivem esse delírio; tremem, vingam-se em si mesmos, e choram, choram…”

E em 07 de junho de 2001, uma referência ao ‘hoje’:

“(…) Escrevo sempre para mim, mas isso me satisfaz – sei que vou querer reler esses escritos daqui a dez ou mesmo vinte anos. (…) e mesmo que eu me veja em circunstâncias completamente outras, sentirei regozijo só de relembrar as sensações que um dia experimentei. E mesmo que, porventura, depois de tantos anos, ainda experimente as mesmas sensações, então esses escritos serão tão mais úteis no futuro. (…) Essa é uma das razões que me leva a escrever. Existem outras que me são um tanto mais obscuras no momento – razões inefáveis, esqueçamo-las…”

Descobri também registros de impressões sobre livros que li. Me interessei muito por mim, vou reler os livros.

2 Responses

  1. Cara este tipo de vivência é sempre boa de ler. O amadurecimento como ser humano é grandioso do ponto de vista eterno.

    Abçs,

    RLima

  2. Eu sempre digo que sou minha leitora número um. Escrevo para aprender comigo mesma, para reviver coisas boas e não esquecer de nada. Gostei da tua escrita :-)

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