O tempo de amar

Amar enquanto jovem é sempre atirar-se num precipício. É um ‘ainda não estar pronto’, enquanto somos ainda desordem e inquietação. Acaba que, muitas vezes, cada um se perde a si próprio por amor ao outro, e perde também o outro.

Amar é difícil, e para tudo o que é difícil, busca-se soluções fáceis – é uma sociedade das facilidades. Amar, experimentar a faculdade de perder-se em outro ser, é uma alta exigência do humano, talvez a maior que ousamos nos propor. No entanto, a maioria das pessoas prefere refugiar-se numa dessas várias convenções que existem em toda parte, inclinando-se a ver o amor como um comércio entre duas pessoas, ou como um gozo, uma satisfação, de acesso fácil, barato e sem riscos, como um produto colorido das propagandas da televisão.

Entretanto, ‘amar’ é uma conquista, e não uma dádiva. É necessário acúmulos de solidões para se aprender a amar. É preciso juntar todas as energias do seu ser e reuni-las no coração inquieto e solitário para nos tornarmos um mundo, um universo, para quem amamos. De que serviria uma união de interdependência, de dois espíritos vagos e incompletos, cuja aproximação é fundada na carência mútua? Em pequenas concessões de superfícies?

Tolstoi disse que o amor consiste na união de duas pessoas que buscam sorver uma da outra o máximo possível de prazer. Nietzsche concluiu que amamos mais o desejo do que o desejado. Creio que tudo isso ocorre, mas não encerra o amor. Este só nos atinge a partir do nosso primeiro esforço interior que tentamos em nossa existência, da primeira ocasião em que estivemos sós no mais profundo de nós, a partir do instante em que já não necessitamos daquelas convenções, e também já nos desprendemos das profundidades da existência. Antes disso, amar é um ‘ainda não estar pronto’.

Mas é necessário amar sempre, desde o começo: dos primeiros amores – ainda que apressados, impacientes e arrogantes – é que nascem as aspirações que nos constituirão até o fim…

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