Conheci, em certa madrugada urbana, um assaltante desses moleques – eu caminhava solitário por uma área comercial absolutamente deserta. O cara me seguia a certa distância e eu me preparei para o assalto, embora não tivesse nada a oferecer no momento: nem grana, nem relógio nem nada. Enfim, para atenuar a tensão, deixei claro que eu o havia notado e deduzido suas intenções, voltei o pescoço e o olhei com um olhar marginal, tirei a camisa e continuei andando. O cara finalmente se aproximou e, ainda três metros atrás de mim:
- me dá um cigarro aí, meu velho! – disse.
- não fumo não, meu velho! – eu disse manifestando algum tédio na voz, para disfarçar a tensão.
- então passa essa corrente aí do seu pescoço! – aí ele já estava ao meu lado.
Ele se referia a uma corrente de pouco valor pecuniário que, naquela época, significava muito pra mim porque fora presente especial de alguém especial. O cara não me apresentou arma alguma, deveria ter seus dezoito ou dezenove anos (eu tinha vinte e três). Então que se foda:
- não passo não cara! Isso aqui – toquei na corrente – foi um presente muito especial. Se assim não fosse, já estaria em sua mão.
O cara, embora tivesse estranhado minha fala segura e decidida, pareceu fazer muito gosto e respeitou:
- ah! Da namorada né? Então fique com sua corrente…
E ficamos amigos ali. Contou-me que era foragido da justiça, que não tinha nada a fazer a não ser crimes; que esperava morrer a qualquer momento, como seus pais, que haviam sido mortos pela polícia; entre outras tragédias tão cotidianas nas periferias. Eu disse apenas pra ele tomar cuidado…
Enfim, chegamos ao fim de uma avenida que separaria nossos caminhos.
- valeu maluco! Estou sempre nas ruas, nos vemos por aí. – ele disse quase com ar de esperança.
- falou!
Antes dele se afastar muito eu o chamei de volta e o entreguei todo o dinheiro que eu tinha na carteira – talvez desse para um cafezinho com pão na manhã já próxima. Ele aceitou com hesitação, depois sorriu e se mandou.
Nos encontramos novamente, semanas depois, durante outra de minhas voltas pra casa pela noite urbana e vazia. Dessa vez meu coração acelerou muito quando, de repente, três caras surgiram da penumbra e partiram furiosos pra cima de mim. Não lembro exatamente o que sucedeu nos três segundos de desespero de ter como certo o enfrentamento com os caras, mas a voz de um deles os parou:
- é o cara da corrente! Deixa o cara! Deixa o cara! O cara é meu! Vá lá velho. Vá lá.
Segui são e salvo. Agradeci com um ‘valeu’!
O cara jamais soubera que, dias antes – porque tudo no mundo muda – eu já havia puxado com força do pescoço a tal corrente, despedaçando-a pelo chão em mil fragmentos perdidos. Para mim já não existia corrente. Para o cara, talvez, ela exista para sempre.
Várias vezes na vida fazemos algo sem ao menos saber – ou entender o motivo….
Raramente descobrimos depois.
Este foi uma dessas descobertas….
Parabéns pelo texto e pela coragem, meu caro.
Simplesmente porque gosto do seu blog:
http://viliouvi.blogspot.com/2008/07/selo-um-blog-da-melhor-qualidade.html
Abraço!
Olá Kc, vim através da indicação da Nina Victor e achei bacana! Parabéns pelo blog.
Abraços.