Uma coisa a mais do mundo

foto tirada por meu amigo Laert

Digamos que uma parte de minha vida saiu pra tomar um ar e nunca mais voltou…
Senti primeiro como uma perda, agora sinto que a vida se multiplicou: a parte que foi virou outra vida; eu virei outra também. E uma infinidade de vivências dessas novas vidas inundaram tudo e outras vidas.

Nesse meio tempo, vivido de forma vertical, comecei a surfar: inusuais movimentos corporais alteram o nosso equilíbrio energético, produzindo um maravilhoso bem-estar físico, crescente leveza e agilidade. Numa cidade como Salvador, pouca coisa há, creio, que se compare ao desafio ancestral de entrar no mar e surfar uma onda que chega sempre como um presente, uma dádiva. Enquanto esperamos flutuando na calmaria, sentimos a imensidão azul, perfeita para perder os pensamentos – atrás da gente, a cidade ignorada, esquecida com tudo que tem dentro. Não há ambiente melhor para torrentes de autoconhecimento – a sinceridade fala alto e diz tudo numa linguagem de um elemento só: vida.

No mar, por uns instantes, vivemos uma espécie de vida imediata, sem intermediações construídas por algo que não nos interessa: sociedade, passado, futuro etc. Os medos são mais diretos também, mais autênticos e estimulantes – se nos apresentam com respeito – não nos agridem, mas nos enfrentam – porque nós escolhemos estar ali no mar…

Poderíamos, é verdade, estar em algum outro lugar que não escolhemos, sentindo outros medos que nos agridem por não termos saída, nos flagelam enquanto boiamos a mercê de correntes perversas. Contudo, no fundo no fundo, trata-se, enfim, de uma escolha que fazemos. Afinal, escolhi surfar no mar, mas não é só no mar que podemos ‘pegar nossas ondas’…

Quando saímos do mar, voltamos a ser meros mortais. Mas nos acompanha a sensação de que quem ‘surfa’ – seja lá qual for a onda – sabe uma coisa a mais do mundo.

One Response

  1. Ótimo texto, Fabrício.
    Como todo blog.
    Vou linkar no meu.
    Bom final de semana! :)

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.