
foto do Flickr de b_d_solis
Há tempos não ouço o termo ‘suposto dossiê’ nos telejornais, nem ‘cartão corporativo’, que já estava até no enredo das novelas. O ‘caso Isabela’ tornou-se a pauta da vez em todos os programas de todos os tipos. Creio que o(s) autor(es) do crime não imaginaram tamanha repercussão. Deram azar: a tragédia da menina aconteceu numa semana insossa de supostas notícias sobre o suposto dossiê da Casa Civil. Virou novela. Capítulo a capítulo, a imprensa alimenta as suposições do público, que acompanha, acusa, deduz e debate o assunto nos bares, cafés, salões de beleza e onde quer que haja gente. Ninguém fala de outra coisa. Falam do sangue, da brutalidade, de justiça em forma de vingança. Mas ninguém se preocupa, por exemplo, com o futuro dos irmãos tão pequenos que enfrentam tamanho trauma. …E convenhamos que o noticiário dá ao público o que ele quer, seja lá o que for. A imprensa quer atenção a qualquer custo. Não importam os fatos, importam as notícias. – Não duvido mesmo que, num primeiro momento, algum ‘jornalista’ mais impulsivo tenha comemorado a morte da menina…
Ontem, dia 17, assistindo o programa matinal de Ana Maria Braga na Globo, vi uma conversa entre esta apresentadora e a atriz Maitê Proença, que enfrentou em sua história um grande drama familiar. Maitê fez comentários sensatos e corajosos quando perguntada sobre o ‘caso Isabela’ – criticou a superficialidade das notícias e também do público em geral e alertou sobre o sensacionalismo em torno do caso. Fiquei bastante impressionado com a fala da linda atriz no programa que se passava ao vivo, quando, no mesmo instante, Ana Maria Braga se levantou para falar de um bolo ou coisa que o valha e disse, sorridente, que ‘era muito bom brincar de conversar com a Maitê, porque conversar com ela é sempre uma deliciosa brincadeira!’ (as palavras foram exatamente essas). A câmera, que fechava num sorriso de Maitê nesse mesmo instante, me deixou perceber a súbita feição de espanto e surpresa contrariada na cara da atriz no momento em que ouviu o comentário…
o assunto do caso Isabella já havia terminado,elas já estavam falando sobre o livro que a atriz acabou de escrever,depois entrou o assunto de personagens que a atriz fez,qdo a apresentadora falou estava frase, a entrevista já estava no momento mais descontraído, e a apresentadora apenas ao dizer isso demonstrou simpatia, pois demonstrou que não era apenas uma entrevista,que ela estava gostando de conversar com a atriz,elas já tinham dado boas risadas antes,portanto não tem absurdo nenhum nisso
Pois é Tarcila… a apresentadora se referiu a entrevista como ‘uma deliciosa brincadeira’, e tinham conversado assuntos bastante delicados. Não creio que Ana Maria Braga quis diminuir a atriz não, mas acho que foi uma colocação inadequada naquele momento, apesar de também ser interpretada como uma descontração. E, no final das contas, a entrevista foi muito mal conduzida, de forma preguiçosa e displicente – não sei se é sempre assim, mas ficou devendo feio – poderia ter explorado bem as lúcidas colocações de Maitê…
A respeito do caso Isabella, há semanas não se fala em outro assunto, o que é resultado da mistura (além dos elementos apontados pelo autor) de um promotor que gosta de holofotes e uma história trágica. Às vezes me pergunto quantas vezes a garotinha foi atirada pela janela.
É verdade que a morte provocada de uma criança comove, afronta valores morais compartidos, causa revolta, repulsa e que o jornalismo tem a função de informar. A questão é que o jornalismo está necessariamente vinculado à estética da realidade, da isenção, apresentação imparcial de fatos, delas irradia sua credibilidade. É isso que se vende, mas não é o que nós, expectadores e leitores, recebemos. É bem verdade que a neutralidade absoluta é um objetivo inatingível, todo recorte seleciona, toda fotografia depende da perspectiva assumida pelo fotógrafo, mas ainda assim é um fim a ser buscado, um princípio orientador.
Na prática, há sempre a passagem repetitiva de informações desencontradas e versões enviesadas, prevalecendo sempre a versão da promotoria nos casos jurídicos. Esquecem (ou omitem) que o inquérito é inquisitório por excelência, que os indiciados não têm direito de defesa nesta fase e que é no julgamento que a legítima defesa será garantida e a autoria e a culpa serão apuradas.
Assim mesmo, a mídia devassa, distorce e julga. Com a extrema repetição imagética, fomenta a comoção popular e manufatura a opinião pública (já que a experiência comunicativa midiática é unilateral). Aborda incansavelmente o mesmo tema porque este vende jornais, revistas e dá audiência e assim o é exatamente porque o assunto é exaustivamente apresentado, num ciclo de retro-alimentação.
A mídia faz o espetáculo e a totalidade da vida nele se converte, a linguagem vira mercadoria. Na expropriação da linguagem comunicativa, a vida prática é alienada e reificada, o mundo midiático (com seu apelo imagético) apaga as imagens cotidianas
As conseqüências são desastrosas: a mercantilização da informação, o descompromisso do jornalismo com a realidade, com a verdade, a pressão no desenrolar do inquérito e do processo acarretando erros primários e nulidades processuais, a interferência no julgamento e no livre convencimento, ainda mais nos crimes de competência do júri. Sempre nos são apresentados vilões (precisamos mais deles do que de heróis) Suzanas, Brenos e Nardornis porque estas histórias maniqueístas e açucaradas rendem. Não são seres humanos com paixões e densidade psicológica que matam, são monstros e isto nos dá uma sensação reconfortante: primeiro porque a desgraça alheia entretém, depois porque nos causa uma sensação deliciosa de superioridade. Todos queremos ser carrascos. Será que o sangue alheia purga nossos pecados?
Fiquei horrorizada ao ver na TV que dezenas de pessoas ficam em vigília em frente a delegacias e ao prédio dos acusados, lembrei da idéia de espetáculo de Guy Debord e Baudrillard: todos estavam visceralmente comovidos e engajados, ao mesmo tempo, expectadores e alheios à própria vida, numa postura de passividade e contemplação, indiferentes à própria existência e a dramas mais próximos e concretos. Quantas crianças são mortas todos os dias? Basta fazer uma vista ao Instituto Médico Legal para ver vários garotos imberbes mortos a tiros e meninas impúberes mortas a facadas.
Mídia, imagem, simulacro e realidade.
Gostei muito do texto, Fabrício, remonta a discussão feita por Marilena Chauí sobre Mídia e Democracia (eu acrescentaria Justiça). Vc foi tão provocante que acabei escrevendo um texto.