Recomendo a leitura da entrevista com o ensaísta e crítico cultural americano Lee Siegel, concedida à jornalista Lúcia Guimarães, no Estadão (domingo, 2 março de 2008). Siegel é um nova-iorquino polêmico, autor de livros como Love and other games of change (2004), Not Remotely Controlled (2007) e Against the Machine (2008). Apresento alguns argumentos de Siegel, e depois teço críticas pontuais – pois não dá pra concordar com tudo. A entrevista foi sobre este último livro, cujo argumento central:
‘é que a internet veio acelerar uma tendência cultural preexistente – o fato de que nunca na história o indivíduo foi tão elevado acima da sociedade, e satisfazer o próprio desejo tornou-se mais importante do que equilibrar os relacionamentos com o outros.’
Embora Siegel enfatize que não é contra a internet, acha que a tecnologia deve ser usada com cuidado: ‘ela deve amplificar nosso humanismo, não nos desumanizar’. Entre uma e outra crítica mais ou menos pertinente, declara-se muito incomodado com o anonimato na rede e defende que:
‘na cultura, chegamos à ditadura do proletariado que Marx queria ver na economia e felizmente não aconteceu. As vozes mais irresponsáveis, mais barulhentas e agressivas estão erodindo a autoridade do jornalismo tradicional – é o igualitarismo antidemocrático. Vivemos um clima de hostilidade ao mérito e ao talento que destaca certas pessoas.’
Sobre Lawrence Lessig – um dos fundadores do Creative Commons e um dos maiores defensores da Internet livre – Siegel diz que:
‘é um cara divertido. Tenho certeza de que é um advogado competente, mas quando começa a falar de cultura, fica engraçado. Ele confunde o que a democracia permite com o que permite a existência da democracia, um mecanismo político e não cultural.’
Penso que a internet é um novo fenômeno para o qual teremos que inventar novas regras. É uma infoesfera global onde todos temos voz e ouvimos uns aos outros – anônimos ou não. Proibir o anonimato é, necessariamente, violar a privacidade. Críticos conservadores vêem no anonimato um mecanismo propício para salvaguardar crackers, caluniadores, terroristas e pedófilos – ameaças terríveis, decerto. Porém, cercear a liberdade de todos – negando o direito à privacidade na internet – para evitar tais criminosos é ainda mais terrível. É preciso evitar a impunidade, mas é imprescindível não criminalizar a rede, e cuidarmos para que argumentos reacionários não acabem servindo àqueles que almejam o controle das velhas estruturas de poder. Se a privacidade for considerada ilegal, somente os criminosos farão uso dela.
Quanto a ‘hostilidade ao mérito’, não vejo como um problema da internet, mas sim dos profissionais que reclamam mérito sem merecê-lo, reclamam elitismo sem praticá-lo. Não creio que mérito e qualidade sejam monopólio do jornalismo tradicional, tampouco que grandes estruturas e dinheiro garantam ‘autoridade’.
Por fim, não ignoro que muitos exemplos de agressividade, estupidez e crimes infestam a internet, amparados precisamente na liberdade e no anonimato. Mas numa infoesfera global, povoada com todo tipo de gente que diverge em valores, em opiniões e mesmo em capacidade, os excessos devem ser limitados pelo civismo e os crimes devem ser punidos pela Lei. – E não havemos de querer impor o ‘civismo’ nem abrir mão de nossa liberdade cedendo-a aos criminosos.
Não raro, para muitos, a liberdade é coisa assustadora… Mesmo livres, clamam pelo barulho de arrastar de correntes…
[...] Sempre em defesa dos blogues e da internet como questão de liberdade fundamental. [...]