As elites da tropa…

Assisti o filme no ano passado – não o comentei aqui no blogue, contudo, respondi um tanto indignado a uma carta ao leitor publicada por Marcel Leal, empresário e jornalista de Itabuna, dono do jornal de maior circulação no sul da Bahia – o A Região. A carta me soou um tanto insensata (parece que foi tirada do ar…).

Agora, com o Urso de Ouro, o filme ganha projeção internacional, e o Presidente Lula diz que ‘Tropa de Elite tem qualidades “extraordinárias” e o prêmio em Berlim projeta o Brasil’.

Ao meu ver, o filme em si não é reacionário. Mas o ponto de vista do Capitão Nascimento é – além de reacionário – taxativo, limitado e violento. A proposta do filme, no entanto, é outra. Defende claramente a idéia de que o comportamento do homem resulta de circunstâncias (e não só do caráter), inclusive o do próprio capitão da tropa, que, dominado pelo stress da ‘guerra’, sucumbe à violência abusiva nas favelas e ao autoritarismo berrado dentro de casa. O Capitão vira a própria Justiça e dá até corretivo em ‘estudante malandro’ da classe média. – É preocupante que o Estado decida que matar pessoas é uma boa forma de punir o crime. Mas é trágico que alguém aceite e, pior, defenda que a polícia deve fazê-lo, independente do Estado, que é regido por leis. E tal pensamento surge numa dita ‘democracia’ avançada como a nossa – como seria sob as asas de uma ditadura a aplicação dessas idéias em nome da segurança pública? Pé na porta e tapa na cara!

A criminalidade está relacionada, (também, mas não somente) às adversas condições sociais do país, mas também à impunidade, esta que, aliás, estimula a corrupção que faz crescer as desigualdades sociais num desumano círculo vicioso. Mas, enfim, porque o BOPE só mata na favela, sob os aplausos de Marcel Leal e Luciano Huck?

É trágico também não saber o que se passa de verdade em seu país ou em sua cidade. Sem conhecer a verdade, sem observar com cuidado e clareza, livre de preconceitos e de soluções simplistas, é impossível resolver o problema. Estaríamos condenados a repetir os mesmos erros históricos de sempre.

Por fim, é claro que todos nós queremos acabar com o crime, e essa vontade é inerente ao ofício da polícia, inclusive buscando impedir a possibilidade mesma do crime. Mas por isso mesmo não é o papel da polícia fazer as leis – teríamos uma vida muito pouco interessante se assim fosse… Aplaudir e ter como solução a ação violenta e assassina da polícia contra os ‘bandidos irrecuperáveis’ é apostar na repressão como forma de organização social, e já é visível que as até aqui ineficazes políticas públicas de segurança só fazem crescer a necessidade de investimento em estrutura policial e construção de presídios. Assim chegamos a uma estrutura de segurança pública hipertrofiada, com elite e elites da elite das tropas, cujos policiais já não consideram o risco do cidadão, mas apenas o do bandido; e os dirigentes responsáveis só consideram os seus próprios riscos políticos.

Por Fabricio Kc

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