Fevereiro 18, 2008...12:24 am
Nevermind… diria Kurt Cobain
Entre os meus parênteses, julgo que Beethoven sorriria para Kurt Cobain. O primeiro era um compositor erudito considerado um dos pilares da Música ocidental; o segundo, um roqueiro canhoto que tocava mal. A sinergia que sugiro entre ambos, entretanto, se deveria ao impacto de suas composições como fonte de energia cultural. Não se trata de uma comparação, mas, antes, de um olhar.
Imagine-se com treze anos em 1991, ainda sem acesso a internet, passando algumas horas do dia em seu quarto ouvindo bandas cujos empresários e advogados ganhavam tanto dinheiro quanto os músicos, e todos tinham como patrão a indústria fonográfica. E de repente, acostumado a ver roqueiros maquiados e calçando sapatinhos brilhantes, você se depara com um vídeo como ‘Smell like teen spirit’! uns caras vestidos do mesmo jeito que você se vestia para ir ao maldito shopping, tocando um som diferente, um som-em-si, sem intermediários entre a música e o seu sistema nervoso. O álbum Nevermind sacudiu o mundo marginal da cultura pop, até desbancar Michael Jackson (o cara dos sapatinhos brilhantes) do topo das paradas.
O Nirvana, então, vira mainstream. Kurt, Chris e Dave, acostumados a tocar nos ginásios das high-schools, agora se apresentam em estádios, nos gigantescos palcos dos festivais patrocinados pela indústria do cigarro. Li em alguma revistona que Kurt pediu Courtney Love em casamento: “valho 10 milhões de dólares, sua puta! Quer casar comigo?” – não duvido que tenha sido assim.
Com sua música meio minimalista, com brutalidades melódicas e fugas das estruturas harmônicas com as quais estávamos habituados, o Nirvana trouxe fôlego não só para o Rock, mas para a música – além de ter escancarado a porta para a galera de Seattle. Mas Kurt não enxergava mais o público nos estádios, alegava que estava perdendo o tesão pela música. Obedecia demais aos patrões – tinha que estar sempre a dar entrevistas a todo tipo de veículo e a participar de maratonas exaustivas de shows. Contudo, o que encantava ainda, além da música, era o fato de o Nirvana ser uma banda que, ao mesmo tempo em que abraçava os valores do capital e da indústria, também os parodiava.
Mas Kurt Cobain meteu uma bala na cabeça em abril de 1994 – tinha apenas 27 anos de idade. Nietzsche disse que Jesus morreu cedo: se tivesse vivido um pouco mais, teria renegado a sua doutrina. Penso que poderia ser também o caso de Kurt – as coisas poderiam ser diferentes se ele esperasse um pouco mais. Enxergo na imagem e sensações que guardo do Nirvana o espírito da internet: ‘faça você mesmo, procure outros como você e foda-se o resto’ (triunfo do punk no coração da América). Hoje os músicos podem rejeitar a grande, feia e boba empresa fonográfica e distribuir sua música de forma independente. O cara poderia ter mil motivos para se matar, mas creio que hoje poderia encontrar também alguns motivos para continuar compondo.
Mas nunca se sabe! Pode haver circunstâncias em que se dê o direito de se tirar a vida de um homem, mas nunca o de lhe tirar a morte. Talvez a importância do legado de Kurt Cobain se deva, pelo menos em parte, ao fato de ele ter se matado – a música dele continua sincera. Um dos fenômenos mais deprimentes, comum ainda, é ver velhos astros multimilionários do Rock tentando espremer até os últimos centavos das draconianas leis de propriedade intelectual.
Nevermind! diria Kurt…
Por Fabricio Kc






3 Comentários
Fevereiro 29, 2008 em 11:11 am
Descobri, cá por casa, um livro que nunca cheguei a ler e que já nem me lembrava que tinha, chamado: Nirvana & o som de Seattle, de Brad Morrel.
Primeira reacção: pôr o Unplugged in New York a tocar.
Os Nirvana ficam na história da música pelo carisma de Kurt e pela excelente discografia que deixaram.
abraços de Portugal
Fevereiro 29, 2008 em 11:18 am
Ainda não conheço tal livro, Nuno. Mas é mesmo uma banda clássica já, pelo carisma e pela música.
Abraço.
Junho 14, 2008 em 5:58 pm
Depois que ouvi Nirvana pela primeira vez,confesso nao ter gostado muito….só que,com o tempo,comecei a gostar até o adorar tanto como os adoro até hoje…Tenho 15 anos,e à14 anos o meu idolo morreu,nao o vi em vida…mas agora o conheço bem em morte…mas a mim este sempre estará vivo…His Immortal to me…
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