Aplicada aos dias de hoje, julgo de ambragência apenas parcial a invectiva de Carlyle: ‘a democracia é o desespero de não encontrar heróis que nos dirijam‘ (1843). O ‘povo’ ainda busca heróis, por isso a palavra ‘povo’ é a mais pronunciada pelos políticos pretensos e de carreira. Contudo, cada professor primário poderia ser um herói de verdade se ensinasse a seus alunos a arte de ler com incredulidade os jornais (e toda a mídia) e a prudência de desconfiar da esperança quando tal palavra é citada em discursos, sejam estes políticos ou midiáticos. Assim, seria menos difícil perceber que ‘democracia’ só é desespero na medida em que não a aplicamos de forma essencial. – O povo, nesta democracia carnavalesca que vivemos hoje, é o ator principal que, aos trancos e barrancos, entre o samba, o mijo e a cachaça, faz da sua festa a alegria de alguns, e acredita que faz também a sua. Mas numa época anti-racional como a nossa, ‘crer’ talvez seja o mais importante, mesmo que vivamos num quase caos enfeitado com urnas eletrônicas.
Por Fabricio kc