Jorge Luis Borges 2.0 e a semântica infinita

Borges

De forma um tanto irresponsável, diversos comentaristas e críticos da cultura – entre os quais figura Umberto Eco – concluem que o escritor argentino Jorge Luis Borges (que eu admiro) é precursor da internet 2.0, posto que suas obras ‘fazem do leitor um participante ativo’. (In The New York Times)

Ora! Para quem leu ‘A Biblioteca de Babel’, por exemplo, a conexão é óbvia! Contudo, a analogia com a internet 2.0, explorada pelo recente livro ‘Borges 2.0: From Text to Virtual Worlds’ de Perla Sassón-Henry, soa, desconfio, demasiado hype, quero dizer, pode tratar-se de uma analogia publicitariamente fabricada, apesar de plausível. A conexão óbvia entre a obra de Borges e a internet é a idéia de um universo do ‘conhecimento total’, ao mesmo tempo concentrado e disperso, hipervisível e secreto, modulado e inesgotável, cujo exemplo é a estrutura descentralizada, espectral e labiríntica da infinita Biblioteca de Babel, imaginada por Borges. Comungar tais características, no entanto, não validam, se não quisermos, a tese de que Borges previu a World Wide Web.

O que Borges previu (ou sentiu), penso eu, foi a expansão quase metafísica do conhecimento humano, virtualizando sua totalidade nas infinitas e interligadas galerias de uma indefinida e eterna biblioteca. Borges não previu a internet, como querem simplificar uns e outros. Ele previu o destino do conhecimento humano,e a internet (seja ela 2.0, semântica ou o que queiram) é uma ferramenta de tal destino, assim como o é o próprio homem.

Borges suspeitava ‘que a espécie humana – a única – está em vias de extinção e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.’ Sua ironia, por vezes tão ofensivamente sutil, nos atira a cara a eternidade do conhecimento que nós, seres destinados a passar, produzimos.

A analogia entre Borges e a internet, portanto, seria infinitamente mais sincera e exata se considerasse uma simples frase sua: ‘magnífica ironia de Deus, que me deu ao mesmo tempo os livros e a noite…’ ¹. Concluo que Deus foi irônico com todos nós, e nos contemplou com a Internet – potencial do compartilhamento do ‘conhecimento total’ – precisamente quando a cegueira e a escuridão rondam a humanidade nuclear, petroquímica, sem imaginação, analfabeta, cinza, estressada, diária…

 

¹ ‘Poema de los Dones’. Excerto do original: Nadie rebaje a lágrima o reproche / esta declaración de la maestría / de Dios, que con magnífica ironía / me dio a la vez los libros y la noche. Borges tornou-se diretor da Biblioteca Nacional precisamente quando sua cegueira agravou-se.

 

Por Fabricio Kc

 

5 Responses

  1. Ninguém nos apresentou – Borges a mim, eu ao Borges (menos ainda ao Outro Borges). Conhecemo-nos há muito tempo, cada qual tecendo e / ou desfiando a sua insônia cruel da lucidez, ou a sua lucidez cruel da insônia.

    Que se o veja como “Eterno Retorno”, “Mandala” “Stream of Consciousness”, “Internet 2.0″, ao meu juízo, está bem.

    Muito boa, de excelência, a tua postagem.

    Um abraço.
    DARLAN M. CUNHA

  2. Obrigado uaíma! concordo com suas palavras, definir (ou comparar) Borges seria sempre um ensaio sem fim…
    Abraço.

  3. o pior desse papo de internet 2.0 é que basta o cabra “participar” seja lá do que for para tornar-se ativo. Parece-me que para atingirmos o conhecimento total precisamos de algo mais, talvez mais qualidade, educação…enfim…
    Grato pelo comentários lá no blog. Ainda não assisti o filme sugerido. Quando assisti-lo mando comentários.

  4. Olá, Fabrício!
    Nunca havia pensado no Borges como precursor da Web 2.0, como “Nostradamus” da verdadeira “Biblioteca de Babel”. Genial a idéia. À altura do grande Borges.
    ;)

  5. Verdade Paola!
    Borges, enfim, era por si só um cara enciclopédico..rs. e sabia transpor isso para sua obra densa e repleta de referências as vezes inventadas…
    Muito legal.

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.