Da capo al fine

Abril 14, 2009 - Deixe seu recado!

Amigos,

Este blogue pára aqui! Teve princípio e teve fim – quem dera eu, com um pequeno infinito no meio.

As razões são tão misteriosas quanto objetivas – e desimportantes. Contemplar o céu e o mar e tentar descobrir o sentido da vida e as razões do Universo, assim como levar Snow para passear, são coisas que têm ocupado sobremaneira o meu… tempo.

A caixa de comentários está fechada, mas meu email consta na página ‘Contato’. Fica minha gratidão para com todos aqueles que, de alguma forma, participaram do ANTITEXTOS, ou lhe dispensaram alguma atenção. Sim, sentirei saudades!

Sei que voltarei a escrever qualquer dia, mas não sei onde nem quando!

Até lá!

Fabrício Kc

Conto

Abril 6, 2009 - 7 Respostas

Há cerca de dois anos, por alguma insensata razão, eu pensei ser capaz de escrever fosse o que fosse! Dentre meus esquecidos e esquecíveis escritos, ressuscito este pequeno ‘conto’, simplesmente porque foi o único que me proporcionou algum prazer ao relê-lo.

O conto trata de uma conversa entre amantes na cama, sobre um possível filho que, porventura, pudessem gerar. Espero que possa oferecer algum prazer também a quem o ler.

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O FILHO

Estavam ambos deitados sobre a cama, esgotados. Luz acesa. Ele, sereno. Ela, pensativa.
- Por que será que com você sinto uma vontade louca de me deixar engravidar? – Ela disse isso com um ar de malícia, de doce menina. Ele, cigarro ainda apagado na boca, sorriu impassivelmente.
- Acho que você gosta mais de mim.
- Não sei. Você gosta de mim? – Ela acariciava os cabelos enquanto falava com uma voz meiga e uma entonação de pedinte.
- Claro.
- Mas não quer ter um filho comigo.
- Quer mesmo ter um filho? Faço-o agora… – pegou-a pelo braço e a trouxe para mais perto de si. Beijou-a com desejo sincero. – Mas olhe – segurou a sua cabeça puxando-a pelo queixo e a fez olhá-lo nos olhos. – Não assumirei esse filho. Será dele. Dele e seu.
- Não me importa. Saberei que é seu. Que é nosso.
Agarraram-se e ela a ele se entregou com desejo. Ele a segurava com força e virava o seu corpo para vê-la melhor. Passava as mãos por seus seios e por sua bunda. Naquele instante ele a amava porque ela era imoralmente sua. Novamente esgotados, entreolhavam-se, suados. Noite alta, ele a observava enquanto ela achava que podia estar deveras grávida.
- Vamos ter um filho. Um filhinho, nosso!
- Já disse que será seu e de seu marido. Quero assim.
- Também quero assim.
Estiveram em silêncio por alguns momentos. Ambos jovens, ela mais ainda. Não era casada. Aquele a quem ele se referiu como marido era na verdade um namorado. Ele também tinha uma namorada, Laura, e a amava ternamente, com paixão e tremor.
- Se eu estiver grávida de verdade, vai contar a ela?
- Não sei.
Eram amigas as duas. Colegas da faculdade de Dança. Saíam sempre juntos: ele, Laura e a menina, a doce menina. No começo, quando se conheceram, divertiam-se tanto! Confiavam uns nos outros e todas as noites se encontravam e bebiam muito vinho. Laura foi morar com ela, com a menina, que morava só. Dormiam lá os três sempre juntos, alimentando desejos mútuos que imperavam nas noitadas regadas a vinho e insônia. Faziam sexo os três. Três bocas se encontravam no beijo. Três corpos se tocavam nus, e ele enlouquecia. Laura gostava de vê-lo penetrar a menina com um desejo irracional e deixava tudo acontecer. Mas um dia, talvez por ciúme, interrompeu os festins e não quis mais vê-los juntos na cama. A menina arranjou um namorado. E todos continuaram muito amigos.
Ele pensava em tudo isso agora. Amava Laura, mas desejava tanto essa menina! e enquanto pensava a olhava, e o desejo o invadia de novo e ele a tomava e montava nela com força.
- Quero estar grávida! Por que quero tanto estar grávida? Não entendo. Só sinto isso com você. Só quero um filho se for seu.
- Talvez você apenas goste de fazer amor comigo – ele disse com alguma indiferença.
- Você ainda a ama? – Perguntou passando os dedos nos lábios dele, suavemente.
- Mais do que tudo na vida.
- Mais do que o filho que teremos?
- Mais do que tudo. – Ele acendeu o cigarro e sentou-se na beira da cama.
- E por que quis fazer-me um filho? Por que você não o fez nela?
Ele levantou e saiu rumo ao banheiro. De lá disse com uma voz firme e alta:
- Já disse que não quero saber de filho.
- Mas…
- Esse filho, se é que está mesmo grávida, será seu e de seu… marido, sei lá. Não gosto dele, de seu marido, namorado, sei lá. Quero que tenha o filho e o faça pensar que é dele. Pouco importa.
- Mas então você também quer um filho, só não quer assumi-lo.
- Sim…
- Por quê?
Ele voltava do banheiro e aproximando-se dela começou a fitar o teto, deixando-se cair de costas sobre a cama.
- Não sei. Tenho já vinte e sete anos e… quero um filho. Só que não quero ligar-me a ninguém, nem quero ninguém ligado a mim. Não suportaria um vínculo de tal natureza, de tal magnitude. Além do mais, eu não saberia educá-lo. Acho que eu enlouqueceria e seria nocivo para ele…
- Entendo que não queira ter um vínculo assim, mas isso não explica porque você quer ter um filho comigo, mesmo que…
- É algo irracional. Instintivo. Não sei bem ao certo. Amo a Laura e não terei um filho com ela. Não quero ter. Mas, de alguma forma, eu amo você também. Ficaria feliz, muito feliz, de ver você e seu marido formando uma família, pais de uma criança que só eu e você saberemos que é nossa. A Laura não quer que nos vejamos mais. Olha Paula, olha pra mim. Nós não nos veremos mais, a não ser como amigos.
- É o que você quer? – ela chorava.
- De alguma forma, sim.
- Vamos acabar nos afastando, nos perderemos um do outro.
- Se você estiver grávida teremos sempre um vínculo.
- Já me sinto grávida. Amarei essa criança como a algo sagrado.
- Estou com sono agora.
- Durma. – Paula acariciava a barriga, contemplativamente.
Antes de dormir, ele imaginou um futuro qualquer, no qual teria um filho em algum lugar, sob os cuidados de Paula. Laura estaria ainda ao seu lado, segurando a sua mão enquanto caminhavam, vento na cara, por alguma praia. A imagem desse futuro o deixou feliz.
Paula, pensativa, acariciando a barriga com pequenas mãos trêmulas, viu que ele dormia, de bruços, com o rosto voltado para o outro lado.
- Terei um filho seu, meu amor. Olharei para ele e verei você. – Ela disse quase sussurrando.
Ele chorava baixinho, escondido, fingindo que já dormia.

fabricio kc

Veias abertas

Abril 3, 2009 - 2 Respostas
am_latina

Foto do Flickr de AHLAM - licença CC

Salário mínimo: R$ 465,00
Passagem de transporte coletivo em Salvador: R$ 2,20

Considerando as condições de um trabalhador que ganhe salário mínimo, trabalhe de segunda à sexta, pegue dois ônibus por dia e almoce ao custo de R$ 5,00 (cinco reais), resultaria a seguinte conta:

Salário: 465 reais
Passagem:88 reais por mês
Almoço: 100 reais por mês
465 – 88 – 100 = 277 reais.

277 reais para o que sobrar da vida. VEIAS ABERTAS!

Em Salvador (como eu acho cara essa passagem) foi implantado, a contragosto e em prejuízo da população, o sistema Salvador Card. O sistema utiliza um cartão eletrônico de meia-passagem (como em muitas outras cidades), que precisa ser revalidado periodicamente. Já sabemos os prejuízos resultantes desse sistema: a impossibilidade de pagar meia passagem em dinheiro, o que obriga muita gente – cujos ganhos são trocados diários – a pagar inteira quando os créditos acabam, inclusive para chegar até um posto de recarga, entre outras coisas.

Além disso, a revalidação do cartão é um processo dramático para os usuários (veja a matéria no A Tarde). Todo o processo é de responsabilidade do SETPS, o Sindicato dos Empresários de Transporte Coletivo de Salvador. As filas são gigantes e o (des)tratamento é ‘dispensável’: “O gerente de comercialização e atendimento do Salvador Card, Cláudio Malamut, responsabiliza a população…” pela espera de 5 horas numa fila, debaixo de chuva ou de um sol mortal, para poder ter direito a um direito. VEIAS ABERTAS!

Consideremos ainda a qualidade do serviço de transporte público: muitos ônibus velhos e ultra barulhentos; alguns motoristas irresponsáveis; escassez em diversas linhas e horários; superlotação absurda em horários de pico. Um trabalhador paga caro, leva horas no trajeto congestionado até chegar em casa, e no dia seguinte tem q sair muito cedo para não se atrasar… Se a carga horária é de 8 horas, despende-se ainda mais umas 4 ou 5 horas do dia em trâmites relacionados ao trabalho. VEIAS ABERTAS!

Mas todos aceitam numa boa, reclama dali e daqui, mas é a vida! Uma passagem que custa R$ 2,20 deveria, no mínimo, oferecer um bom serviço: ar condicionado aqui não é luxo; respeitar horários e parar no ponto; mais ônibus nos horários de pico e linhas mais eficazes.

am_latinaReação, por que não?

As pessoas, especialmente a comunidade estudantil (que protagonizou a exemplar ‘Revolta do Buzu’), deveriam experimentar um manobra:

Escolher um dia, a guisa de protesto, para pagar um preço justo e viável de passagem urbana em relação às reais condições de vida do trabalhador soteropolitano.

Sugiro, por exemplo, R$ 0,30 (trinta centavos). Naquele dia escolhido, de forma livre e espontânea, quem quiser pagar tal valor, pagará – quem quiser pagar os 2,20, fique à vontade. Que isso fosse feito em larga escala, durante todo o dia, com ampla participação dos estudantes e demais cidadãos. Por que não?

Tratar-se-ia de uma livre ação popular pacífica, sem transtornos cotidianos à cidade, justa, justíssima, considerando a necessidade de transporte como serviço público essencial. Poderia, inclusive, resultar em constatações positivas: o brutal lucro das empresas de ônibus seria reduzido minimamente, considerando que o volume de passageiros aumentaria muito com a redução da passagem – muita gente pegaria vários ônibus várias vezes.

Se os empresários de ônibus não tivessem lucros eles fariam protestos e não lobbys; eles faliriam, e não ficariam ricos – ou mudariam de negócio.

am_latinaFlash mob

Dia 4 de abril, em Salvador, ocorrerá o Pillow Fight Day, dia internacional da guerra de travesseiros. Talvez seja divertido, mas por que não pensar num flash mob que, em vez de guerra, ofereça uma ação com maior potencial de repercussão, de mobilização pública, de difusão dessas novas formas de ações sociais: varram as ruas, catem o lixo, paguem 30 centavos por uma passagem de ônibus…

Internet livre é sociedade livre

Março 26, 2009 - 2 Respostas

surveillance

Está em tramitação no Congresso o projeto de lei proposto pelo Senador Eduardo Azeredo (PSDB – MG), que estabelece regras e penalidades para crimes na internet e obriga a identificação dos usuários de internet antes de iniciarem qualquer operação que envolva interatividade, como envio de e-mails, conversas em salas de bate-papo, criação de blogs, captura de dados (como baixar músicas, filmes, imagens), entre outros.

Antes de tudo, é preciso perguntar: o que é a internet? Quem, e de que forma, deve regular a internet?

A internet é uma rede de pessoas, um espaço de múltiplas apropriações. Os governos tendem a ver a rede mundial como algo próximo do modelo broadcasting, como tecnologia de difusão de conteúdo. As pessoas e as organizações da sociedade civil, por sua vez, defendem que a internet constitui um espaço de comunicação entre pessoas e disponibilização de conteúdos dos mais diversos tipos; e de interface para novas práticas sociais e culturais.

De modo geral, as perspectivas são otimistas no que se refere às potencialidades da rede, matizadas, contudo, por um temor quanto a privacidade e a segurança.

A Informação deve ser livre

Assim, o debate sobre a regulação do uso da internet divide opiniões entre aqueles que defendem a liberdade de expressão e o direito a privacidade como questão de liberdade fundamental, e aqueles que crêem ser necessário ‘vigiar para poder prevenir’ danos ao cidadão e a sociedade.

No sistema de mídia audiovisual tradicional, como Rádio e TV, a regulação incide essencialmente sobre o difusor e não sobre o consumidor final dos conteúdos. Só que, na internet, além de consumidores, todos podem ser emissores e produtores. Logo, é patente a necessidade de conceber uma eventual regulação que previna crimes e danos, mas também assegure princípios básicos de liberdade, como a proteção da privacidade e o livre e fácil acesso à informação. É preciso buscar uma solução que seja baseada mais numa ética comum do que na estrutura dos mercados e do poder. Estamos falando em redes horizontais e não em hierarquias verticais.

Mas será que estamos a discutir a adoção de um modelo de regulação de uma nova dinâmica tecnológica ou de um modelo de vigilância e repressão?

Desconfie da autoridade

Há sérias limitações no que se refere à atuação do Estado na regulação de algo como a internet, especialmente em relação aos conteúdos: quem definirá, e sob que critérios, o que são conteúdos e posturas aceitáveis e não aceitáveis na rede? como garantir a capacidade tecnológica e financeira de aplicação da regulação?

É importante questionar se o modelo de regulação a ser adotado deverá se basear na esfera tecnológica, cujas constante mutação e evolução pode tornar as soluções obsoletas e até inviáveis; em dinâmicas de mercado (favorecendo interesses financeiros de grupos empresariais em detrimento do caráter público da rede); e mesmo em modelos de gestão política e organizacional que, quase sempre, são também efêmeros. Ou se a escolha de um modelo de regulação não deverá considerar princípios gerais de liberdade individual e de uma sociedade democrática, atentando para as opiniões expressas pelos próprios cidadãos utilizadores das novas tecnologias em rede.

Descentralização

Uma das potencialidades da internet é a de promover a descentralização do Poder no mundo. Contudo, tal descentralização, as vezes, é mais enunciada do que realizada. Embora a rede possibilite que até o mais incógnito cidadão publique seu blogue com fotos, vídeos e textos,  as cadeias tradicionais de difusão da informação e entretenimento migraram para a rede, ameaçando concentrar a atenção dos internautas nos veículos/empresas mainstream da informação.

Porém, essencialmente, a disponibilidade de trilhões de bits de informação e desinformação conflitantes, válidos e inválidos, descentraliza, sim, a atenção coletiva. É bom que que os conflitos surjam de uma nova e descentralizada dinâmica social em vez de serem fabricados pelo discurso hegemônico de um velho sistema de difusão e controle da informação concentrado nas mãos de uns poucos senhores ‘da guerra’.

Acompanhe discussões sobre o projeto de lei do Senador Azeredo via Sérgio Amadeu e DPádua.

Conheça a história da internet através do seguinte video documental animado com ícones, abarcando desde o final dos anos 50 até os dias de hoje:

History of the Internet from PICOL on Vimeo.

O mais belo soneto

Março 24, 2009 - Uma resposta

O mais belo soneto de Shakespeare:

Aos olhos da minha amante o sol não deve;
Mais rubro é o coral que os lábios dela;
Seu peito não é branco como a neve;
E a cabeleira é mais negra que bela.
Vi rosas vermelhas, alvas, damascadas,
Mas nunca reflectidas no seu rosto;
Senti essências bem mais delicadas
Que no sopro daquela de quem gosto.
Anseio ouvir-lhe a voz, e contudo sei
Que a música há-de ter mais perfeição;
Por deusa caminhante eu nunca dei;
A minha amante apoia os pés no chão.
Porém, oh céus, eu acho-a tão rara
Quanto ilusões com as quais não se compara.

(tradução caseira de Paulo)
—–

My mistress’ eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips’ red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damask’d, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go;
My mistress, when she walks, treads on the ground:
And yet, by heaven, I think my love as rare
As any she belied with false compare.

Desconhecida ww2

Março 24, 2009 - Deixe seu recado!

World War II. 1945. Um submarino americano torpedeia e afunda um barco japonês. Os sobreviventes flutuam agarrados aos destroços, com alguma esperança, talvez, de serem resgatados pelo inimigo. Ainda nem tão próximos, flutuando, recebem uma saraivada de balas de todo calibre, desde canhões até pistolas – são executados na água.

A atitude selvagem dos marinheiros americanos tem uma explicação: cumpriam ordens! Registrou-se, já na fase final da guerra no pacífico, numerosos casos de japoneses que aproveitavam o resgate do inimigo para suicidarem-se com granadas, matando soldados e causando danos aos navios.

A guerra faz emergir nuanças da natureza humana que preferimos isolar a qualquer custo. A que ‘moral’ recorrer em tais circunstâncias? Estabelecemos regras para travarmos guerras, tentando impor um limite aquilo que por si só já é o horror. Mas o que faria você no lugar dos marinheiros americanos?

Uma cortesia da humanidade, via site Archivo Romano, que oferece ‘a desconhecida Segunda Guerra em cores’!

Sobre ‘O Leitor’

Março 13, 2009 - Uma resposta

Assistir ‘O Leitor’ foi uma experiência interessante!

Claro que, depois de ler, em sites que freqüento, as opiniões de Marcelo Janot (aqui), Luiz Fernando Gallego (aqui) e Cléber Eduardo (no Cinética), é difícil não concordar com os defeitos apontados – batendo tudo no liquidificador: um filme com potencial, porém muito degradado por tentáculos hollywoodanos e adjacências.  Eu, no entanto, filtrei alguns recortes que, parece, ninguém deu importância.

O que me chamou mais a atenção foi a dimensão demasiadamente comum da personagem Hanna – ignorante e rude, mas sensível; inocente, nazista, carrasca e amante – como a grande maioria das pessoas.

Daqui em diante, SPOILERS

cena de O Leitor

cena de 'O Leitor'

Quando perguntada, durante o julgamento, acerca do que motivou o seu recrutamento na SS, Hanna respondeu que trabalhou na Siemens, mas perdeu o emprego e precisava de um novo trabalho – a Polícia Nazista estava, oportunamente, recrutando. Ela se tornou guarda e foi designada para trabalhar num campo de concentração – diga-se – montado pelo Estado Alemão. Lá, cumpria ordens de seus superiores: selecionava prisioneiros para morrerem. ‘O que o senhor faria em meu lugar?’, ela pergunta, perplexa, ao juiz.

Do ponto de vista ‘conceitual’, a inocência doentia (assim a percebi) de Hanna não difere muito da criminosa serenidade do nosso dia-a-dia. Se os nazistas matavam gente em série através de uma máquina burocrática estatal, as estruturas sociais capitalistas de hoje não melhoraram muita coisa. Centenas de milhares de pessoas vivem em situação de extrema miséria, e morrem todo dia matando-se umas as outras ou de fome e doenças de todo tipo – se eu me preocupo apenas com meu emprego, em certa medida, não sou igual a Hanna? Se para que eu ganhe, trinta pessoas têm que perder, e eu sei disso, e me vanglorio disso, não sou um ‘banalizador do mal’?

Um dos alunos do seminário, no filme, questiona o professor sobre os campos nazistas: ‘meus pais sabiam, seus pais sabiam, nossos professores sabiam, e não fizeram nada? E se não souberam antes, porque não se mataram quando descobriram?’ Quem não sabe da fome e da miséria no mundo – e deduz suas óbvias causas – que atire a primeira pedra. Porque todos vimos mais de 1 trilhão de dólares surgirem para acudir prontamente especuladores irresponsáveis e milionários do mercado financeiro, mas, mesmo com todas as campanhas de artistas, ONGs e tudo o mais, não se conseguiu um quinto disso em 30 anos para amenizar a fome e a miséria no planeta.

Mas, claro, precisamos de alguém ou algo para culpar enquanto nos preocupamos em nos tornar digníssimos e tributáveis gerentes do mercado. Condenaram Hanna a prisão perpétua sob a acusação de ser um monstro nazista. Nós condenamos o que? O capitalismo? Os poderosos? O Sistema? O que, disso tudo, não está em nós?

O filme termina com Berg contando sua história para a filha – final fraco, mas ainda assim extraio um recorte: ele começa: ‘uma mulher me ajudou…’. É a última frase do filme…

METATEXTOS

Fevereiro 14, 2009 - 3 Respostas

Elegi uns poucos textos que escrevi aqui no ANTITEXTOS como dignos de serem relidos – não por sua qualidade ou importância (por esses critérios não sei se algum se salvaria) , mas simplesmente porque ainda gosto deles, embora o eu que os escreveu tenha sido outro. As vezes acontece de pensarmos em nós num futuro desses qualquer, presumindo o que iremos nos tornar – e não nos damos conta de que o Passado e o Futuro não são mais do que belas e necessárias invenções – as maiores invenções da humanidade, como pensou Vàlery.

Há um pouco, claro, de um auto-deleite egoísta e pequeno – quase narcisista, mas de bom grado – nessa publicação retrospectiva. Serve também para perceber um pouco do perfil do ANTITEXTOS  (que tem durado mais do que eu poderia prever) e, claro, de seu autor.  Promovo, então, os seguintes posts (não necessariamente nessa ordem):

Crônicas e literatices

Cinza
Maio 27, 2008

Fumava um cigarro na janela do meu quarto, segundo andar. Leve brisa e barulho do mar ao longe. Pensamentos. Ouvia say it to me (Glen Hansard). Dei um peteleco no cigarro e um pequeno fragmento de cinza esvoaçou contemplado por meu olhar. O fragmento flutuou percorrendo cerca de cinco metros quase paralelamente a parede. De [...]

Poema
Janeiro 9, 2008

foto de Fabricio kc

Quando a luz
Abdicou das cores,
E toda a realidade
Era a paisagem
Querendo fazer parte de ti,
Todo o outono
Quis ser você.

O cara da corrente
Julho 16, 2008

Conheci, em certa madrugada urbana, um assaltante desses moleques – eu caminhava solitário por uma área comercial absolutamente deserta. O cara me seguia a certa distância e eu me preparei para o assalto, embora não tivesse nada a oferecer no momento: nem grana, nem relógio nem nada. Enfim, para atenuar a tensão, deixei claro que [...]

Diálogo comigo mesmo
Agosto 18, 2008

Por uns tempos, mantive o ímpeto de escrever num caderno as minhas sensações emocionais, as minhas impressões íntimas do momento. Relendo-as, percebo o quanto são pontuais em relação a uma fase da vida, percebo o quanto mudei, o quanto aquele era outro que só agora é mais claro pra mim, a ponto de eu me [...]

Somente o que passa permanece…
Janeiro 6, 2008

‘Adeus’ talvez seja a palavra mais cruel do mundo. Flui da boca, exigindo pouco esforço dos lábios. Se a palavra é dita de perto, a meia voz, soa sempre grave – se muito tarda, é disparada em menos de um segundo!… fere para a vida inteira.
Disse-me adeus a pessoa que amo! Assim, como quem [...]

Sustentável leveza do ser
Junho 17, 2008

Milan Kundera escreveu que viver seria meio que ser jogado numa peça de teatro, sem ter idéia clara do que esperar, improvisando a cada ato. Há mesmo uma semelhança caritativa, que premia a existência com possibilidades criativas. Querer ter algum controle sobre a própria vida é sempre uma perda mesmo – é restringir-se, fechar os [...]


Opiniões variadas

Admirando Jorge Luis Borges
Dezembro 19, 2007

Jorge Luis Borges era mesmo diabólico. Um provável devorador de enciclopédias, jamais escrevia vastos romances, mas apenas contos, poemas e notas. Fascinado por labirintos, mestre da ironia, da metáfora e da análise matemática e lógica das idéias, abordava sempre temáticas ligadas à filosofia, à teologia, à metafísica e à mitologia. Compor vastos livros, para [...]

Jorge Luis Borges 2.0 e a semântica infinita
Janeiro 12, 2008

De forma um tanto irresponsável, diversos comentaristas e críticos da cultura – entre os quais figura Umberto Eco – concluem que o escritor argentino Jorge Luis Borges (que eu admiro) é precursor da internet 2.0, posto que suas obras ‘fazem do leitor um participante ativo’. (In The New York Times)

Ora! Para quem leu ‘A Biblioteca [...]

Arte e cultura livres
Abril 10, 2008

foto do Flickr de Bluelinestudio.it
A indústria [termo que vem se tornando cada vez mais antipático] viciou de tal forma algumas dinâmicas sociais que geram maus costumes até mesmo naqueles que deveriam dela estar livres – como é o caso de muitos artistas. Creio que o artista deve subverter todas as relações que não sejam favoráveis [...]

Atitude open source
Novembro 20, 2007

Vê-se despontar o que se está chamando de ‘ética hacker’ – uma emergente subcultura cujos valores fundem anti-autoritarismo punk com fascínio pelas tecnologias informacionais de ponta. A nova onda é a atitude colaborativa, não mais a competitiva que caracteriza a atual dinâmica econômica. As tendências das novas tecnologias – amplamente relacionadas com a infinita replicabilidade [...]

Bienais, ratos e artistas
Outubro 27, 2008

Não entendo dos conceitos de Arte como não entendo do sentido da vida! Mas gosto de arte como gosto da vida! Contudo, dado o caráter essencial da arte – falseamento (ou entendimento, olhar, como queiram) da imagem da vida através da beleza – a pichação na 28ª Bienal de São Paulo foi uma rica intervenção [...]

A militância partidária e a infinidade dos possíveis
Outubro 23, 2008

Não desmereço a importância da militância partidária para a dinâmica social nem desconheço de todo as diferenças ideológicas e programáticas entre os diversos partidos políticos.  O que sei é que à medida que partidos crescem e ganham espaço nas esferas de poder, as diferenças entre eles se apaziguam e os seus militantes tornam-se, em certa [...]

As cores das trevas
Dezembro 1, 2008

Reli ‘O coração das trevas’, de Joseph Conrad, considerado por Jorge Luis Borges ‘o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu’. O coração das trevas, no relato, é o mais profundo interior da selva africana durante as colonizações européias no século 19, e também, talvez, os meandros da mente humana [...]

Pessoa revisitado

Fevereiro 11, 2009 - Deixe seu recado!

pessoa

Sempre fui leitor assíduo de Fernando Pessoa – em verso e prosa. Às vezes prefiro o Caeiro ‘fecho os olhos quentes… sei a verdade e sou feliz’, outras me identifico mais com o Álvaro de Campos ou até mesmo com o desassossego de Bernardo Soares. Sinto como se Pessoa escrevesse tudo o que eu seria capaz de pensar se eu fosse genial.

Achei que tinha lido muito do cara, e talvez o tenha feito. Mas não o tinha relido. Reler é sempre melhor do que ler – descobri então outro Pessoa, e foi como se eu saísse de uma escura catedral dos velhos livros já lidos para vislumbrar novíssimos horizontes luminosos nos mesmos livros já lidos, mas que são agora outra coisa, e eu mesmo já sou outro.

É brilhante, um cara como Pessoa, tão inviável como pessoa, ser brilhante. Lê-lo é fundamental apenas para que possamos relê-lo, e relê-lo é fundamental, creio, só pra que o leiamos novamente.

É um choque e um deslumbre saber que nada se esgota, que o tempo é tão pouco e que o mundo é uma coisa a cada instante, como nós mesmos.

Tarantino’s Mind

Fevereiro 8, 2009 - Uma resposta

Dez minutos de uma deliciosa conversa de bar sobre uma tese a respeito dos filmes de Quentin Tarantino.

Direção: Selton Mello
Elenco: Selton Mello, Seu Jorge
Brasil, 2007.