Maio 7, 2008

Dica de filme - ‘Irina Palm’

Há poucos dias assisti, na companhia de Marcela Isis, o filme ‘Irina Palm, de Sam Garbarski (2006, Bélgica / Luxemburgo / Inglaterra / Alemanha / França).

Trata-se de um drama, embora com momentos divertidos, sobre o sacrifício de uma senhora cinquentona, a Maggie (Marianne Faithfull), que, para ajudar o neto que necessita de tratamento médico especial, acaba aceitando o trabalho numa casa de prazeres onde suas mãos macias fizeram fama. Ela não se expunha – atuava numa cabine que fora por ela decorada, para susto do dono da casa, como a saleta de estar de um lar tipicamente britânico. Entrava, preparava as mãos, e olhava o ameaçador buraquinho onde apareciam os ávidos objetos de seus toques e movimentos continuados esplendidamente aplicados, a julgar pelo sucesso de Irina Palm na boca pequena dos desocupados da noite londrina.

É óbvio que era um trabalho secreto - ela o fazia por baixo do pano. Seu filho jamais aceitaria tal coisa. E como se fazia necessária uma grana boa e urgente - e a família já havia esgotado todas as possibilidades de levantar fundos – Maggie encarnava a Irina Palm com gana e afinco, a ponto de desenvolver uma lesão no cotovelo muito comum em tenistas, conhecida como ‘cotovelo de tenista’, prontamente adaptada por ela como ‘cotovelo de penista’ – e passou o serviço para o outro braço…

Maggie, cinquentona, tinha amigas também cinquentonas que se reuniam frequentemente para tomar o chá das cinco e conversar fiado apenas sobre o que se permitiam, e não era muito. Desconfiadas das diárias saídas noturnas de Maggie, passam a pressioná-la e olhá-la de lado, curiosas. E o filme segue, como uma boa música, que de repente chuta forte a bunda da hipocrisia cotidiana de muita gente que assiste a vida passar como idiotas babões que vivem trocando entre si os argueiros dos olhos e o medo das chibatas e dedos em riste dos padres, dos vizinhos, de Deus, de si mesmos e do diabo a quatro…

A grandiosa Maggie, se bem me lembro, termina o filme sorrindo…

Confira o trailer no youtube.

Abril 30, 2008

Professor Manta quer ganhar o Nobel*?

Trechos da matéria sobre as declarações do professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Antonio Natalino Manta Dantas, publicadas no portal Terra:

O professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Antonio Natalino Manta Dantas, atribui ao ‘baixo QI dos baianos’ a nota 2 obtida pelo curso no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade).

Pode estar havendo uma contaminação das cotas e influência da transformação curricular nesse resultado.

Ainda na entrevista, Dantas afirmou que a tradicional percussão do Olodum é um ‘barulho‘ e que um dos símbolos da Bahia, o berimbau, é um instrumento para pessoas pouco inteligentes. ‘O berimbau é o tipo de instrumento para o indivíduo que tem poucos neurônios. Ele tem uma corda só e não precisa de muitas combinações musicais‘, disse.

Vê-se que o professor Manta, baiano e formado na UFBA em 1960, é daqueles cuja vida prática não contradiz as opiniões. O professor recorre a simplificada idéia numérica de QI – Quociente de Inteligência – para acusar a suposta inferioridade dos baianos. Um erro científico básico: conceitos de raça e de inteligência não são claros na Biologia moderna e não há motivos científicos para pregar diferenças de nível de inteligência entre grupos distintos.

É comum que gente equivocada incorra em falácias – conscientes ou não – favorecendo certos grupos frente a outros segundo aspectos culturais e não relacionados a inteligência. Declarações como as do professor Manta não sinalizam apenas ignorância, são perniciosas, não obstante sejam também risíveis, e seu efeito deve ser a destruição de sua própria reputação, supondo que ele tenha alguma. O professor Manta incorre em velhos erros históricos, talvez, para ganhar o Prêmio Nobel*?

Sobre o berimbau, Tom Zé dá uma resposta esclarecedora, apesar de evidente para quem tem o mínimo de percepção de mundo…

* Referência as declarações do biólogo James Dewey Watson – ganhador do prêmio Nobel – que declarou estar “inerentemente pessimista quanto às perspectivas da África” porque “todas as nossas políticas sociais estão baseadas no facto de que a inteligência deles é a mesma que a nossa – enquanto que todos os testes dizem que não é assim”.

Abril 28, 2008

mínimas

Talento para banalizar o drama e dramatizar o banal é o que basta para ser jornalista?

Abril 18, 2008

O amor natural de Drummond

Eu já conhecia Drummond quando li pela primeira vez ‘O Amor Natural’ e fiquei gratamente surpreso de saber que, para o poeta, a ‘máquina do mundo’ era movida também a sacanagem… Escolhi três poemas que compõem a obra lançada em 1992, emblemas do despudor poético do cara:

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.

Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.

Adorando.

Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

A castidade com que abria as coxas

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

Mimosa boca errante

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

Abril 18, 2008

Um papo esquecido sobre religião

foto do Flickr de bachmont

Dia desses, numa discussão desinteressada, defendi que, não obstante a importância da Religião para o homem, o religioso em si é – considerando nossa cultura cristã ocidental – alguém de alma degradada e auto-mutilada. Argumentei que uma Religião autêntica teria que ser contracultural em essência – como o foi o cristianismo em suas origens –, pois nossa cultura cristã ocidental estabelecida já não respeita o sagrado, nem as tradições – tudo, agora, é muito fluido e mutável; o nosso ‘Deus’ é hoje um conceito vago pronto para se dissolver numa ‘força vital’ ou ‘consciência superior’; a Igreja Católica é uma instituição sem lugar, mais preocupada com seus efeitos terrenos do que com o outro mundo que prega, nos fazendo crer que Deus foi feito para a Igreja, e não o contrário; e as seitas pentecostais, como a Igreja Universal e afins, representam o que há de mais selvagem no quesito intolerância e manipulação e também ignorância, marcadas por uma tal sede de dominação do mundo e das pessoas que resultou numa das crenças mais ferozmente pretensiosas de nossos tempos.

Na mesma discussão, disse ainda, levianamente, que igrejas teriam sempre uma atmosfera mórbida e doentia – cada fiel levaria consigo ao lugar os seus demônios e tentaria sufocá-los a todo custo, mesmo que inadvertidamente – e por isso mesmo da forma mais perigosa.

Abril 18, 2008

Que se fodam os fatos, queremos notícias…

foto do Flickr de b_d_solis

Há tempos não ouço o termo ‘suposto dossiê’ nos telejornais, nem ‘cartão corporativo’, que já estava até no enredo das novelas. O ‘caso Isabela’ tornou-se a pauta da vez em todos os programas de todos os tipos. Creio que o(s) autor(es) do crime não imaginaram tamanha repercussão. Deram azar: a tragédia da menina aconteceu numa semana insossa de supostas notícias sobre o suposto dossiê da Casa Civil. Virou novela. Capítulo a capítulo, a imprensa alimenta as suposições do público, que acompanha, acusa, deduz e debate o assunto nos bares, cafés, salões de beleza e onde quer que haja gente.  Ninguém fala de outra coisa. Falam do sangue, da brutalidade, de justiça em forma de vingança. Mas ninguém se preocupa, por exemplo, com o futuro dos irmãos tão pequenos que enfrentam tamanho trauma. …E convenhamos que o noticiário dá ao público o que ele quer, seja lá o que for. A imprensa quer atenção a qualquer custo. Não importam os fatos, importam as notícias. – Não duvido mesmo que, num primeiro momento, algum ‘jornalista’ mais impulsivo tenha comemorado a morte da menina…

Ontem, dia 17, assistindo o programa matinal de Ana Maria Braga na Globo, vi uma conversa entre esta apresentadora e a atriz Maitê Proença, que enfrentou em sua história um grande drama familiar. Maitê fez comentários sensatos e corajosos quando perguntada sobre o ‘caso Isabela’ – criticou a superficialidade das notícias e também do público em geral e alertou sobre o sensacionalismo em torno do caso. Fiquei bastante impressionado com a fala da linda atriz no programa que se passava ao vivo, quando, no mesmo instante, Ana Maria Braga se levantou para falar de um bolo ou coisa que o valha e disse, sorridente, que ‘era muito bom brincar de conversar com a Maitê, porque conversar com ela é sempre uma deliciosa brincadeira!’ (as palavras foram exatamente essas). A câmera, que fechava num sorriso de Maitê nesse mesmo instante, me deixou perceber a súbita feição de espanto e surpresa contrariada na cara da atriz no momento em que ouviu o comentário…

Abril 17, 2008

Humanidade desistida

foto do Flickr de Mabar

A humanidade, apesar de grandiosa em alguma medida, sempre foi horrenda! As mais negativas características de nossa época – como o fascismo, o nacionalismo, a corrupção, a intolerância religiosa – são também de todas as épocas. Vê-se mais comumente hoje, entretanto, a ascensão dos idiotas, os estúpidos no poder. A juventude hoje é velha e conservadora – os jovens medem a vida a partir de coisas sem importância, dedicam a vida ao desejo utilitário e à busca insossa de comodidade financeira e de um artificial, frágil e mesquinho status social, em qualquer esfera ou classe social (exceto aqueles que encontram no crime e na violência a forma desesperada de existir). A vida dos jovens atuais os tornam tolos e desinteressantes, e a sua falta de curiosidade e de ousadia perante outros aspectos da vida menos superficiais e os preconceitos de todos os tipos escondem um rancor secreto contra o mundo.

Àqueles que agora sentem que pisam num chão que lhe desagrada, resta-lhes ser sua própria fonte de experiências e ver um mundo diferente, ainda que sozinhos – sob o brilho solar de uma vida que desponta a cada amanhecer, a cada movimento… a cada onda que irrompe do mar.

Abril 10, 2008

Arte e cultura livres

foto do Flickr de Bluelinestudio.it

A indústria [termo que vem se tornando cada vez mais antipático] viciou de tal forma algumas dinâmicas sociais que geram maus costumes até mesmo naqueles que deveriam dela estar livres – como é o caso de muitos artistas. Creio que o artista deve subverter todas as relações que não sejam favoráveis à arte, mas o que se vê, quase sempre, é o contrário: a indústria subverte os artistas, e estes atuam segundo interesses da indústria [interesses que passam a ser também os seus quando a sua motivação passa a ser mormente de natureza comercial].

Não é difícil imaginar, mesmo para os diletantes, o quanto são restringidas as possibilidades de desenvolvimento de diversos tipos de arte (especialmente do cinema) quando a motivação dos produtores é predominantemente comercial. Não é preciso ser escritor para perceber o quanto a literatura padece com a motivação comercial - ‘É difícil para os escritores não medir o próprio mérito pelos direitos autorais, e quando os livros de má qualidade podem trazer boas compensações pecuniárias é necessário muita firmeza de caráter para produzir bons livros e continuar pobre’, escreveu Bertrand Russel em 1935. É evidente que tal situação não se aplica somente aos escritores, e que direitos autorais, no caso, implicam não só em reconhecimento [que é necessário], mas em dividendos cujas proporções, normalmente, são estabelecidas pelas empresas intermediárias entre autor e público.

Embora a internet, ainda que de forma experimental e caótica, elimine a necessidade de tal intermediário [visto que qualquer um pode publicar sua obra diretamente], é claro que critérios devem ser considerados - afinal, artista não é quem apenas publica algo, mas quem produz arte e a publica [pessoalmente, penso que publicar um livro deve ser, sim, possível, mas também um tanto de dificuldade não faria mal – pois exigiria alguma determinação e vontade do autor para publicar a sua obra, demonstrando que acredita nela, confiando que tem algo de valor a expressar]. Contudo, sei o quanto a dinâmica anárquica da internet é fundamental para a difusão da cultura e do conhecimento, indo de encontro a ‘ditadura do intelectual’ e ao elitismo reivindicado, porém não praticado de alguns espíritos draconianos – e não é a toa que a rede [que cresce a cada dia em volume de conteúdo - qualquer conteúdo - e participação de pessoas] incomode tanto as indústrias que fizeram fortuna e poder com a arte e a cultura, especialmente as fonográfica e cinematográfica – os setores mais afetados pela pirataria. Aliás, com o surgimento de tecnologias como P2P, os prejuízos dessas indústrias foram tão gritantes e deseperadores que ensejaram um fenômeno interessante: as empresas agridem seus próprios clientes acusando-os de bandidos – e não é raro ver artistas agredindo seu próprio público a mando dos donos das empresas as quais se rendem, comparando o ato de baixar um vídeo ou uma música na internet a um roubo de carro ou coisa que o valha. A questão dos direitos autorais, claro, deve ser amplamente discutida – afinal o artista precisa sobreviver e ser reconhecido e até recompensado – mas não apenas sob a ótica da indústria, afinal, os tempos mudam….

Em suma, pelo menos para os artistas, é hora de resgatar a arte como arte, e esperar dela resultados como tal. É preciso ter claro que mesmo que toda a indústria em torno da cultura e da arte ruam e desabem, a arte permanece, desde que permaneçam as pessoas e, claro, os artistas. A arte não precisa da indústria, seja esta da esfera pública ou privada. Precisa, sim, de públicos – e começam a surgir outras formas de alcançá-los que prescindem da sujeição do artista aos donos da indústria. Novos modelos de negócios surgem e novas formas de propriedade intelectual mais flexíveis - como a licença Creative Commons - que estimulam a livre troca de idéias e a livre e dinâmica circulação de obras autorais. Já é um começo. Cabe aos artistas revisarem seus objetivos quando necessário, e ousarem descobrir e experimentar - e arriscar - novas possibilidades de difusão de seus trabalhos.

Por Fabricio Kc

P.S. A internet faz surgir novos modelos de negócios também no âmbito artístico-cultural como exemplificou a banda inglesa Radiohead, que disponibilizou em seu site o album Rainbow para download, deixando a critério dos fãs definir quanto pagaraiam por ele.

Abril 8, 2008

Poema achado

Cale-se.

é preciso que me ouças.

no dia em que me negaste,

expus minh’alma a todos os ventos, a todos os versos.

desde então não há nada que não me seja nocivo.

que não me enlouqueça.

Todos os infelizes e miseráveis, entre homens e deuses,

tiveram em mim a sua desforra.

No dia em que me negaste a sua cumplicidade,

a cada respirar senti náusea.

não suportei o silêncio,

nem o ruído descabido de meu coração a bater,

irritantemente.

Não suportei a razão.

não suportei sentir ou enxergar.

No dia em que, despretensiosamente, deixou que

minhas lágrimas despencassem no vazio,

eu me mantive submerso.

A cada amanhecer tive uma treva.

A cada chão que piso, um inferno.

Desde que me negaste a sua boca,

tenho, a cada movimento, uma chaga.

A cada pensamento… uma morte.

Fabricio kc, em 18/10/2001, Homenagem à Corja dos Poetas

Abril 7, 2008

citações

“Para se julgar um homem é preciso estar no segredo do seu pensamento, das suas desgraças, das suas emoções; só querer conhecer da sua vida os acontecimentos materiais é fazer cronologia, a história dos parvos.”

Honoré de Balzac

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