Em “Inimigos Públicos” (2009), o Dillinger de Mann e de Depp queria existir, e a única e imperativa condição era livrar-se do tédio para realizar, na existência, a sua idéia de liberdade.

O criminoso, quase sempre, não está à altura do seu ato: ele o diminui e difama, e raramente os seus advogados são artistas o bastante para reverter a seu favor o belo horror do seu ato. Em “Inimigos Públicos” (2009) o diretor Michael Mann alcança a proeza de transformar em arte não só uma história do famoso assaltante de bancos John Dillinger – tantas vezes já adaptada para o cinema – mas também um roteiro repleto de lugares comuns de filmes de gângsters. O filme é uma adaptação do romance do escritor americano Bryan Burrough, ambientado na década de 1930.

Dillinger, interpretado por Johnny Depp, é retratado como um paladino da liberdade existencial e do desprendimento que busca inabalavelmente o amor de Billie Frechetti (Marion Cotillard), é caçado pelo burocrata J. Edgar Hoover (Billy Crudup) que disposto a tudo para fortalecer o F.B.I., elege Dillinger como o inimigo público número um dos EUA e contrata o policial ascético Melvin Purvis (Christian Bale) para comandar a caça obcecada a Dillinger.

Entretanto, o enfrentamento em campo entre o agente Purvis e o criminoso Dillinger não chega a compor um conflito suficientemente intenso para impressionar o espectador. Dillinger é o herói, superior no jogo a tal ponto que, enquanto fugitivo, visita o centro de investigações de seu próprio caso dentro das dependências do prédio da Polícia de Chicago. De início, a estrutura do roteiro já se declara, em certa medida, previsível. Contudo, o ritmo do filme com seus cortes precisos, elegantes movimentos de câmera e a encantadora fotografia de Dante Spinotti (que trabalhou com Mann várias vezes, inclusive em “O informante”) prendem até a descoberta de que a narrativa é, ao fim e ao cabo, um meio para a forma. Johnny Depp concentra em si toda a força e o brilho do caráter peculiar de Dillinger, ao passo que os outros personagens, mesmo os mais famosos como Baby Face Nelson, passam a depender de Dillinger para expressarem-se unicamente através de seus respectivos contrastes em relação a ele. Então Dillingger, quase onipresente no quadro, passa a nos seduzir e conquistar.

Não é novidade o fascínio que foras-da-lei imprimem no público, desde cowboys do velho oeste até os temerários cangaceiros das caatingas nordestinas, como tampouco é novo suas representações no cinema, inclusive as várias adaptações envolvendo a trajetória de John Dillinger. No caso do Dillinger de Depp, tudo que é complementar ou cede lugar ao essencial – ele chora sozinho, enquanto dirige seu carro, ao ver a sua amada Billie ser presa por sua causa. Aliás, o interesse súbito de Dillinger por Billie revela algo de seu caráter: uma mulher mestiça (filha de uma índia), pobre, direta e altiva – apaixonar-se por ela seria um desafio, possuí-la seria também uma transgressão. É a simpatia da personagem Billie e as reviravoltas do casal que renova a atenção ao filme. Os dois amantes se aproximam em meio aos riscos e incertezas, e a confiança e a liberdade extremada que Dillinger anseia – “eu vou para onde eu quiser”, diz ele – vê-se finalmente golpeada pelo afastamento forçado de Billie. Ele decide agir mesmo sabendo-se em desespero, contrariando as regras de seu falecido amigo, comparsa e conselheiro Walter Dietrich. Os métodos do FBI tornavam-se mais sofisticados (e mais truculentos) e também os métodos do crime: os assaltos a banco e a trens, especialidades de Dillinger, passaram não só a ser inúteis, mas sobretudo um incômodo para os chefes do crime organizado. O famoso fora-da-lei estava só.

É então que o final começa. Parece que Dillinger não muda a perspectiva através da qual sempre enxergou a existência, mas ele inverte a posição de onde ele a observa. Passa a correr todos os riscos, seu semblante resgata e reforça o interesse do espectador pelo filme mesmo depois de cerca de cento e vinte minutos, e, enfim, a trama atinge seu clímax: Dillinger vai ao cinema assistir Clark Gable, no papel de um enérgico gângster, em “Manhattan Melodrama” (que em português tem o sintomático título de “Vencido pela Lei”). Condenado à morte, Blackie, o personagem de Gable, diz para o carcereiro na prisão: “morra como viveu, subitamente. Tem de ser assim, não prolongue. Viver assim não significa nada.” Dillinger vê-se na cena, identifica-se plenamente, e a câmera se demora em close-up, captando seu olhar e um sutilíssimo e revelador sorriso na face.

Descobre-se que “Inimigos Públicos”, afinal, é uma obra de arte, um culto da forma e um exercício louvável de direção. Michael Mann não infringe as convenções clássicas do cinema Hollywoodiano, todavia imprime fortemente sua personalidade no filme, inclusive optando pela captação digital de boa parte das imagens. O Dillinger de Mann e de Depp queria existir, e a única e imperativa condição era livrar-se do tédio para realizar, na existência, a sua idéia de liberdade. Tinha que atirar à face do público que o inconformismo e a ação era a única saída para escapar da trivialidade da vida comum durante os anos da grande depressão. O romantismo que vai se desenvolvendo crescentemente em Dillinger vai se diluindo em matizes de serenidade e determinação, até desaguar numa quase vontade de fim. A vida, para ele, pode mesmo ser um depósito de fantasias, mas somente daquelas que ele se sente apto a realizar. Enquanto via Clark Gable como a si mesmo no cinema, a sua única fantasia era a de lograr o êxito final de um fim digno do herói que ele, ali, julgava ser.

Enfim, Mann não se interessa muito em propor paralelos entre aqueles anos 1930 e os nossos dias, mas deixa entrever que os proclamados inimigos públicos do Estado são o que o Estado não é: humanos no sentido mais pleno. O recrudescimento gradual dos métodos aplicados pelo agente Purvis, e a truculência, o despreparo e a ineficácia dos policiais, isto é, do Estado no combate aos “inimigos públicos” nos remete a determinadas conjunturas atuais.

A trilha sonora de Elliot Goldenthal é adequada e competente e o uso de músicas de época interpretadas por Billie Holiday bem como a breve participação de Diana Krall como crooner são marcantes. O figurino e os elementos cenográficas são discretos e precisos, acentuando a relevância das interpretações e potencializando a presença dos personagens, especialmente do personagem de Depp. Trata-se, evidentemente, de um filme histórico, mas para Michael Mann, os fatos não se fazem necessariamente fundamentais. Ao domínio da vida mesma pertencem os fatos, mas um filme precisa de história.

por fabricio ramos

Veias abertas, mas firme no compasso e nas lutas, segue a nossa América Latina. Compõe uma belíssima homenagem este painel musical sobre este nosso belíssimo poderoso continente feito de sangue, suor, lágrimas, amor, cores e alegria.

 

Calle 13 – Latinoamérica
Directores: Jorge Carmona y Milovan Radovic
Productor: Alejandro Noriega
Patria Producciones

É fundamental lembrarmos que muitas das questões que nos preocupam são, antes de serem políticas e econômicas, humanas.

Hoje tive em mãos o jornal A Tarde desta terça, 17, e duas notícias me chamaram à leitura: um elogioso texto de um professor da UFBA sobre o “movimento Desocupa”; e uma matéria sobre a execução de um trabalhador em Pernambués, execução perpetrada, segundo parentes da vítima e moradores do bairro, por policiais. A nota diz que a Polícia ainda não abriu nenhum inquérito sobre o caso.

Convite a uma reflexão contextual

Participei da manifestação “Desocupa”, e a considerei legítima e necessária – espero mesmo que manifestações assim se desdobrem em ações continuadas e articuladas de protesto e mobilização popular efetiva. Entretanto, a vergonhosa privatização da praça é apenas um pálido reflexo – um sintoma – do problema mais profundo, a causa: o sequestro da Política por poderosos grupos de interesses privados. Na Bahia, este é um problema do município, acentuado pela total ausência de gestão na prefeitura, e também do Governo do Estado, afinal foi amplamente noticiado que houve uma transação envolvendo o governo Wagner, a prefeitura e as bancadas partidárias de vereadores para alterar a Lei de Ordenamento do Uso do Solo (LOUS) da capital baiana – exigência que atende aos interesses de grandes construtoras, empreiteiras e outras empresas que lucram com o mercado da especulação imobiliária.

Enquanto isso, as periferias se tornam cada vez mais violentas, e a cidade como um todo – mesmo em suas áreas nobres – cada vez mais perigosa. Creio que a maioria das pessoas que participaram do “Desocupa” não moram em periferias nem em comunidades, e vivencia a violência social através do medo e dos jornais, mas não no cotidiano nem do mesmo modo tal como a vivencia a maior parte da população de Salvador, que sofre inclusive as violências do aparato policial do Estado e do sistema de organização política e econômica que gera as graves desigualdades sociais (legalmente) e possibilita os escandalosos extravios políticos (ilegais, mas frequentes e impunes).

Repito que a questão da praça é importante e, logo, o protesto do “Desocupa” é legítimo, visto que o caso reflete graves extravios políticos e sociais. Também não acuso a nós – participantes do protesto – de não nos importarmos com outras causas sociais, políticas e culturais de grande relevância. Mas é fundamental lembrarmos que muitas das questões que nos preocupam são, antes de serem políticas e econômicas, humanas.

A matança cotidiana nas periferias é uma realidade inerente a muitas das cidades brasileiras. A naturalização da violência nas favelas e periferias, tão frequente nos jornais e nos programas televisivos policialescos, já não nos mobiliza tanto quanto exigiria uma Ética voltada para a valorização da vida e para o melhoramento estrutural de uma sociedade dita politicamente organizada sob a égide de ideais como democracia e cidadania.

Fica um convite à nossa reflexão: protestar contra os nítidos sintomas de doença de nossa problemática sociedade é necessário, mas não devemos excluir a nossa atenção às suas causas, sejam elas nítidas como a desigualdade social em si, ou não tão claras como as ideologias que condicionam e alimentam tal desigualdade, legitimando falsos discursos sobre as suas causas e consequências.

Que ideologias? Que discursos? Que problemas? – parto, portanto, de uma notícia pontual sobre o assassinato de um trabalhador num bairro de Salvador e da experiência de uma espontânea mobilização de protesto – o Desocupa (que traz slogans como “a cidade é de todos” e “a Bahia ainda está viva”) –, para sugerir uma reflexão sobre a nossa sociedade, as nossas responsabilidades, o valor da vida e sobre as nossas motivações políticas. Nenhuma resposta, apenas questões…

Desocupa Salvador: É preciso continuar e fortalecer o movimento, obrigando aos invasores a Desocuparem os espaços que nos foram usurpados. E tais espaços, embora representados pela praça dos indignados, não se resumem a ela, mas abrange a retomada da Política, da Cidadania, da Liberdade de Expressão e da nossa responsabilidade.

Ato público "Desocupa Salvador"

Ontem, 14 de janeiro, centenas de manifestantes protestaram – de forma criativa, pacífica e enérgica – contra os abusos que Salvador e a Bahia têm sofrido por parte de grupos de poder que dominaram e ocuparam a política institucional e partidária, subjugando poderes executivo, legislativo e judiciário através de um jogo de interesses e favorecimentos escusos, muitas vezes criminosos, assemelhando-se a uma dinâmica característica das máfias mais perigosas.

O Camarote Salvador, estrutura tão armengada quanto faraônica, representa um símbolo desse contexto: uma invasão arbitrária do espaço público popular por parte de uma empresa, com a conivência da prefeitura, cujo único objetivo é o lucro fácil de seus donos (um dos quais é neto de ACM), através da apropriação indevida de uma importante manifestação popular festiva que é o carnaval de Salvador. Os efeitos: legitimação da exclusão social; cerceamento, por vários meses, do acesso à praça dos Indignados em Ondina; obstrução do acesso à praia frequentada principalmente pelas pessoas das comunidades próximas – e estes são só os efeitos mais evidentes.

manifestantes do #OcupaSalvador acamparam na Praça dos Indignados, em Ondina.

No dia 15 de outubro de 2011, um grupo de manifestantes, articulados num movimento global chamado 15-o (15 de outubro), ocupou literalmente a praça dos Indignados – hoje ocupada pela estrutura do Camarote Salvador – e lá permaneceu acampado por mais de um mês, até sofrerem pressões da SUCOM (órgão da prefeitura que “licitou” a praça) para saírem. A ocupação – chamada #OcupaSalvador (conheça o blogue do Ocupa, suas ações e propósitos), promoveu debates abertos, realizou ações diretas criativas e intervenções e atos de protesto, abriu o diálogo com pessoas das comunidades circundantes e com moradores e pequenos comerciantes do Bairro de Ondina e, sobretudo, iniciou a discussão sobre a praça, renomeando-a para Praça dos Indignados, e sobre a conjuntura de extravios generalizados perpetrado pelos poderes públicos, que, dependentes de negociatas com poderes financeiros e empresariais, intrumentalizaram a estrutura dos partidos políticos e dos órgãos públicos para atenderem os seus interesses privados.

Ontem, diversas pessoas, espontaneamente articuladas a partir da internet, foram à praça protestar – mas não puderam ocupar a praça – que já estava ocupada pelo camarote – e foram obrigadas a ocupar a rua. Com um discurso político forte, mas não partidarizado, muitos falaram no microfone aberto, lembraram antigos carnavais genuinamente populares, levantaram faixas e cartazes criativos, e gritaram que a praça é do povo e ordenaram aos invasores: “Desocupa!”.

Tratou-se, evidentemente, de uma manifestação simbólica e pacífica. A Polícia Militar, presente para proteger a estrutura do Camarote sob ordem judicial que ameaçava a liberdade da manifestação, estimou que mais de 400 pessoas compareceram, e tudo transcorreu – graças aos manifestantes – sem incidentes de violência e conquistando o apoio de muitas pessoas que passavam pelo local, inclusive dentro dos ônibus.

Entretanto, não basta indignar-se, embora a indignação seja inevitável em todos os cidadãos livres que não dedicam a sua vida a atender subordinadamente aos interesses desses restritos grupos de poder destrutivos. É preciso transformar a indignação num vetor de ação e não de impotência – ação articulada, genuinamente política, cidadã e livre. A manifestação deste sábado mostrou que queremos e, sobretudo, sinalizou que podemos. É preciso continuar e fortalecer o movimento, obrigando aos invasores a Desocuparem os espaços que nos foram usurpados, para que sejam novamente ocupados por aqueles que verdadeiramente são responsáveis por eles: o cidadão livre. E tais espaços, embora representado pela praça dos indignados, não se resumem só a ela, mas abrange a retomada da Política, da Cidadania, da Liberdade de Expressão e da responsabilidade que nós temos para com o Sentido de Comunidade politicamente organizada, que deve prevalecer em qualquer país, estado ou cidade que se aproxime de um ideal de democracia.

O leitmotiv de Cidade Baixa é, por assim dizer, a “vida” mesma e tudo que dela resulta quando as razões derivam da busca da sobrevivência: incertezas, carências, sexualidade, violência e amor! – Por fabricio ramos

Alice Braga com Wagner Moura e Lázaro Ramos, em Cidade Baixa

“Cidade Baixa”, de Sérgio Machado, nos propõe, logo em seu início, um deslocamento do nosso olhar para o lugar – e para o imaginário – dos personagens. O filme começa com uma negociação entre uma prostituta e dois rapazes, nos põe no meio de uma rinha de galos e, logo a seguir, expõe a violência física que, entre outras violências, atua no ambiente da baixa renda, do baixo meretrício, do baixo calão. Depois de apresentado o mundo dos três personagens, um único e permanente conflito constitui a narrativa: o triângulo amoroso entre karinna (Alice Braga), a prostituta, e os dois rapazes – amigos de infância – Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Wagner Moura). Na rinha, a briga entre dois galos, um branco e um preto, parece prenunciar, ilustrativamente, os futuros embates entre os amigos.

Deco e Naldinho vivem na Cidade Baixa, em Salvador, e frequentam o submundo do lugar que o filme busca  retratar com um esforçado naturalismo, preocupando-se com seus tipos, suas cores, seus traços históricos e seus riscos. Os dramas cotidianos são orientados pela busca da sobrevivência e de uma estabilidade sempre perseguida, mas sabidamente inalcançável (Naldinho chega a assaltar uma farmácia), todo um mundo de desejos e paixões, regados a suor e sangue, condicionado àquela realidade social da “baixa renda”.

A fotografia de Toca Seabra é primorosa e a câmera é inquieta quando a cena é inquieta, aproxima-se dos corpos, movimenta-se em travellings variados, enquadra e desenquadra de acordo com o grau de tensão – é uma câmera humana. Todos os elementos fílmicos – as cores, o ritmo e a música leve e forte de  Carlinhos Brown e Beto Villares – ora nos acalmam, ora nos fazem desejar ar puro. O roteiro de Machado e Karim Aïnouz não toma partido de nenhum dos dois amigos visto que um salva a vida do outro: Naldinho é ferido no bar em lugar de Deco, e este o leva para casa e cuida dele. Ambos valorizam a amizade mútua e nenhum deles tem mais alguém com quem contar. Embora o adiado conflito direto entre os dois hesite em deflagrar-se, a atuação de Lázaro Ramos faz Deco anunciar, a cada olhar e gesto, a iminência de uma tragédia. Afinal, o caráter de Deco é mais próximo da introspecção e ao mesmo tempo do rompante, enquanto Naldinho tem um espírito “bicho solto”, porém de caráter mais estável e decidido. O leitmotiv de Cidade Baixa é, por assim dizer, a “vida” mesma e tudo que dela resulta quando as razões derivam da busca da sobrevivência: incertezas, carências, sexualidade, violência e amor!

“Cidade Baixa” busca sim, estimular a identificação do espectador não habituado àquelas forças vivas, sem floreios dramáticos, que são a substância da vida daqueles que não vão aos shoppings, não cogitam estudar para concurso público nem sacramentam o casamento nas igrejas, em suma, daqueles jovens cujos anseios de vida não podem resumir-se a um projeto de estruturação financeira, mas antes, à experiência mesma da sobrevivência imediata. Mas nos aproximamos dos personagens, e até os compreendemos em alguma medida, porque eles invocam em nós o que há de mais essencial – são, claro, humanos, exaltadamente idiossincráticos, a um só tempo causas e sintomas de suas respectivas realidades, como todos nós. Mesmo alguém distante daquele mundo sente uma ânsia ancestral de intensidade e curiosidade por um mundo pleno de incertezas, ávido por ser descoberto em meio a sua selvageria, desconfiando que tais novidades, na verdade, sempre estiveram próximas.

Nesse sentido, Sérgio Machado resgata toda a carga de sua participação em trabalhos de Walter Salles, como “Central do Brasil” (1998) e também “Abril despedaçado” (2001), no qual foi roteirista em parceria anterior com  Karim Aïnouz. Ambos os filmes têm uma dimensão trágica, mas o primeiro ancora-se num “realismo social” ao passo que o segundo carrega no lirismo quase puro. Em “Cidade Baixa”, mais uma vez, Machado incorre na tragédia cotidiana, mas situa o filme a partir de uma estética – e também de uma ética – centrada no naturalismo. Em todos os trabalhos há catarse, que se manifesta através dos apelos narrativos que estimulam o espectador a liberar-se de seus interesses práticos cotidianos, narrando vidas excessivamente reais e cotidianas, mas sob uma perspectiva trágica. Trata-se de um efeito da estrutura do filme, isto é, do modo como ele é colocado diante do espectador. Como roteirista em “Madame Satã” (2002), Machado lidou com aspectos e matizes do submundo, mas o protagonista era rico em si mesmo. Em “Cidade Baixa” os protagonistas são pessoas comuns cujas nuances compõem a nossa realidade próxima (ainda que não vista) e até a nós mesmos, se nos olharmos com suficiente coragem.

Impressiona que o filme não tenha uma fala marcante em si mesma, por seu conteúdo ou idéia! Contudo, os diálogos, em seu conjunto, com suas falas carregadas de gírias e baianidades, permeadas de pausas, silêncios, gestos e respirações, constituem o próprio sentido do filme, potencializando a importância fundamental das interpretações, exigindo destas toda a carga dramática que, se não estão além da fala, situam-se além da frase. Todos os encontros dos personagens são intensos, nada é conclusivo exceto subjetivamente. Aliás, o filme termina sem um desfecho objetivo, e acerta também nisso. Se “Cidade Baixa” transborda a pungência da vida imediata, e o desfecho da vida é a morte, então, tal como na vida, a trama não acaba antes do fim, o final do filme não deve ser simplesmente dado, mas deve ser, sim, presumido ou conjecturado por cada espectador, segundo seus próprios olhares, invocando um exercício de vontades até onde se queira ir, como o fim de uma música que poderia trazer mais um refrão, mas encerra-se em fade out, legando-nos sua atmosfera mesmo depois de sua passagem.

Sensual e violento, “Cidade Baixa” nos apresenta personagens em carne e pele. Os galos saíram ensanguentados depois da briga na rinha, assim como Deco e Naldinho depois da troca de socos e pontapés nos becos da Cidade Baixa. O animal sem igual, mais profundo e mais forte, capaz de ódio e de amor, desprovido, no filme, de reverências religiosas, de apreciações estéticas. Ao Sagrado sobrepõe-se a sobrevivência, a arte é desafiada pelo drama em si mesmo. Karinna engravida, a solução é um aborto. Naldinho precisa de grana, a solução é um assalto. Deco precisa extravasar suas emoções, a solução é o boxe, independente de ganhar ou perder. Mas nenhum deles foi capaz – até ali, onde o filme não se conclui, mas pára – de abdicar um do outro. Afinal, há pontos de fusão naquelas vidas: Naldinho escapou da morte depois de esfaqueado; Deco parece se esforçar para manter-se de pé; e Karinna é uma moça errante, vivenciou um suicídio, fez abortos – é com a sua beleza refletida no espelho que o filme começa e é com a proximidade de seus olhos molhados e seu choro inescrutável que Sérgio Machado os abandona. “Cidade Baixa” é, não obstante os desencontros, um filme de encontros e reencontros.

CIDADE BAIXA (2005) / 110 min. – Brasil.

Diretor: Sérgio Machado
Elenco: Alice Braga, Harildo Deda, José Dumont, Ricardo Luedy, Olga Machado, Maria Menezes, João Miguel, Wagner Moura, Lázaro Ramos, Débora Santiago.
Roteiro: Sérgio Machado, Karim Ainouz
Fotografia: Toca Seabra

 

Prévia do projeto “tempos de hera” (dez/2011), doc independente realizado pelo Bahiadoc – arte documento. O vídeo será publicado em breve no sítio, para livre acesso e difusão.

O vídeo trará encontros com poetas baianos que fundaram a revista Hera, publicação que em seus 20 números editados entre 1972 e 2005, engendrou uma marcante movimentação literário-cultural em Feira de Santana, com destacada reverberação na Bahia e importante repercussão nacional. Participaram os poetas, escritores e artistas visuais baianos Antônio Brasileiro, Juraci Dórea, Washington Queiroz, Wilson Pereira de Jesus, Roberval Pereyr e Uaçaí Lopes.

Trata-se de uma realização independente do Bahiadoc – arte documento, que contou com o apoio da Diretoria de Audiosual e Multimeios – DIMAS/Funceb, através do NAP – Núcleo de Apoio à Produção, que oferece suporte às produções independentes na Bahia disponibilizando equipamentos e técnicos para as filmagens.

http://www.bahiadoc.com.br/

O forumdoc.bh, Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte dedica-se à exibição, à discussão e ao fomento da produção cinematográfica, sobretudo a documental. Ao longo de quatorze anos consecutivos, o forumdoc.bh exibiu quase três mil filmes, para um público total estimado em 70 mil pessoas. O festival é Organizado pela Associação Filmes de Quintal, em
parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais.

Este ano, o festival aconteceu entre 21 de novembro a 4 de dezembro, exibindo 100 filmes diferentes em sua origem, forma e conteúdo, prezando a diversidade de perspectivas.

O início do belo texto de abertura do catálogo de 2011 revela o fôlego assertivo do docforum.bh – incita-nos a uma reflexão profunda sobre os atuais contextos culturais e, sobretudo, desperta o afã de conhecer o festival! Segue:

“1.  O forumdoc.bh foi um projeto coletivo construído na dúvida e na incerteza. Imprecisão, resistência, resíduo. Quando o espetacular ensaiava tudo dominar, quando os donos do capital ameaçavam tomar conta de vez dos humanos e da natureza, da política, da televisão, do cinema de ‘bilheteria’, da ciência, da arte de galeria, da programação genética, da reportagem televisiva, do jornalismo, dos realities-shows, de um tipo de festival com pura cara de publicidade, antes que tudo acabasse no roteiro pré-estabelecido pelas elites, antes que o mundo acabasse ou que ele se tornasse único e sem diferença, neste momento, foi preciso sonhar, e, paradoxalmente, foi preciso inventar algo menor, periférico, que apostasse na continuação do mundo com o cinema, que rompesse as fronteiras entre a arte e a vida, a ficção e o documentário, e, ainda, que fosse livre e gratuito. Deste sonho nasceu um festival de cinema que não se realiza sob a lógica do ‘uno’ maldito do Estado ocidental, que não é feito por uma só pessoa ou cabeça pensante, mas por muitos, novos e velhos; [...]”

Esse texto completo e a íntegra do catálogo estão disponíveis em http://www.forumdoc.org.br/2011/catalogo-2011

Do sítio Bahiadoc – arte documento:

O Bahiadoc – arte documento realizou uma série de encontros com poetas baianos que fundaram a revista Hera, publicação que em seus 20 números editados entre 1972 e 2005, engendrou uma marcante movimentação literário-cultural em Feira de Santana, com destacada reverberação na Bahia e importante repercussão nacional.

A nossa ideia é contruir um painel audiovisual a partir das conversas com os poetas baianos, buscando apresentar a revista Hera a partir das falas de seus fundadores e estimular discussões sobre a importância histórica do intenso movimento literário que a revista engendrou, contribuindo para a memória cultural e para a reflexão sobre um importante capítulo da literatura baiana. Nós entrevistamos os poetas, escritores e artistas visuais Antônio Brasileiro, Juraci Dórea, Washington Queiroz, Wilson Pereira de Jesus, Roberval Pereyr e Uaçaí Lopes.

Consideramos, afinal, que a essência da poesia – como manifestação humana do sentimento traduzido em imagem através da linguagem – compõe fundamental substância para a criação estética audiovisual, mote e razão da relação que nós do Bahiadoc – arte documento queremos construir com nosso público potencial e com os novos agentes criativos do cenário baiano independente de audiovisual, ajudando a difundir e potencializar realizações que contemplem olhares autorais sobre as nossas realidades e que valorizem e se aproximem da rica história cultural baiana.

Em breve, o material estará disponível no sítio para livre acesso e difusão.

A nossa produção contou com o apoio da Diretoria de Audiosual e Multimeios – DIMAS/Funceb, através do NAP – Núcleo de Apoio à Produção, que oferece suporte às produções independentes na Bahia disponibilizando equipamentos e técnicos para as filmagens.

A revista Hera

A revista Hera foi criada, no início da década de 70, a partir do incentivo do professor, escritor e poeta Antônio Brasileiro, que editou escritos de cinco estudantes do ensino médio do Colégio Estadual de Feira de Santana. No primeiro número, feito em 1972 (com data de janeiro de 1973 na edição impressa), foram publicados contos de Antonio Carlos Vilas Boas, Roque Portela, Roberval A. Pereira, Washington Queiroz e Wilson Pereira, os fundadores.

Nos dois números seguintes (abril-1973 e outubro-1973), permanece o gênero conto. Do número quatro (junho-1974) ao número vinte (abril-2005) a revista Hera encontra a identidade pela qual é reconhecida, uma revista de poesia, com mais de 900 poemas publicados (de 100 autores).

Lançamento da edição fac-similar

Através da Uefs Editora e da Fundação Pedro Calmon, foi publicada a edição fac-similar que reúne, em um único volume, as vinte edições da revista Hera, que saíram entre 1972 e 2005. Este volume, que é o primeiro da coleção Memória da Literatura Baiana, foi lançado, com momento de autógrafos, no dia 6 de dezembro, no Palácio da Aclamação, em Salvador.

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fonte: Bahiadoc – arte documento

por Trazibulo Henrique Pardo Casas

A quem se deleita com arte, para quem gosta de poesia e aos estudiosos da literatura, os tambores estão ressoando, quem tiver ouvidos que ouça. A Uefs Editora e a Fundação Pedro Calmon publicam a edição fac-similar, em um único volume, das vinte edições da revista Hera, 1972-2005. Este volume, que é o primeiro da coleção Memória da Literatura Baiana, será lançado, com momento de autógrafos, no dia 6 de dezembro, no Palácio da Aclamação, às 19h.

A revista Hera foi criada, no início da década de 70 do século XX, com a edição dos escritos de cinco estudantes do ensino médio (na época curso científico) em uma escola pública – Colégio Estadual), na cidade de Feira de Santana. No primeiro número, feito em 1972 (com data de janeiro de 1973 na edição impressa), foram publicados contos curtos de Antonio Carlos Vilas Boas, Roque Portela, Roberval A. Pereira, Washington Queiroz e Wilson Pereira, os fundadores.

Nos dois números seguintes (abril-1973 e outubro-1973), permanece o gênero conto. Do número quatro (junho-1974) ao número vinte (abril-2005) a revista Hera encontra a identidade pela qual é reconhecida, uma revista de poesia. Com mais de 900 poemas publicados (de 97 autores), destaca-se, na edição fac-similar de Hera (712 páginas), o que afirma um dos fundadores e diretor da revista em dezessete edições, Roberval Pereyr “os leitores verão, guardadas as proporções entre autores neófitos e aqueles já estabelecidos, o que temos sempre afirmado: qualidade”.

A revista Hera pode ser considerada uma publicação de permanência e aglutinação: dos cinco autores fundadores, Roberval Pereyr publicou em todos os vinte números, Wilson Pereira em dezoito e Washington Queiroz em dezessete; em dezessete edições foram publicados autores estreantes na revista.

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O Bahiadoc – arte documento está produzindo um documento audiovisual independente sobre a Revista Hera. Aguardem!

Firmino Rocha, afetuoso, etilista assumido, emocionado, morreu em Ilhéus em 1971, mas foi sepultado em Itabuna, sua terra natal (e também a minha).

Autor de O canto do dia novo e Momentos, legou-nos o poema “Deram um fuzil ao menino”, que está gravado numa placa de bronze na sede da ONU, em Nova York. Eis o poema, patrimônio do mundo:

Firmino Rocha, poeta grapiúna

DERAM UM FUZIL AO MENINO

Adeus luares de Maio.
Adeus tranças de Maria.
Nunca mais a inocência,
nunca mais a alegria,
nunca mais a grande música
no coração do menino.
Agora é o tambor da morte
rufando nos campos negros.
Agora são os pés violentos
ferindo a terra bendita.
A cantiga, onde ficou a cantiga?
No caderno de números,
o verso ficou sozinho.
Adeus ribeirinhos dourados.
Adeus estrelas tangíveis.
Adeus tudo que é de Deus.
DERAM UM FUZIL AO MENINO.

Firmino Rocha

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